Fã ou pesquisadore?

Escrito por:

Beatriz Bandeira de Mello

Fernanda Vidal Martins Couto

Stefhani Sousa

Maria Luiza Isnard

Revisado por: Julyanna Ribeiro 

“Sério que você estuda isso?” O Aca-ARMY que nunca ouviu isso que atire a primeira pedra! Geralmente, essa é a primeira coisa que ouvimos, quando começamos um trabalho acadêmico sobre nossos ídolos. Por isso, logo de cara, nos deparamos com nosso primeiro desafio: como justificar a importância do nosso objeto de estudo? E, mais ainda, como conciliar o nosso trabalho de pesquisa com o fato de sermos fãs?

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BTS – Pied Piper

Equilibrar o trabalho acadêmico com o “trabalho de fã” nem sempre é uma tarefa fácil. Como apresentamos em nossa thread sobre ‘Bad Decisions’, ser fã não significa apenas consumir o que determinado artista produz, mas também construir uma identidade cultural vinculada a este objeto de admiração. Por essa razão, o vínculo emocional e afetivo que existe entre o fã e o seu artista favorito é algo que deve ser considerado. Porém, como lidar com esses sentimentos durante a realização de um trabalho acadêmico? Sabemos que pode parecer difícil, por isso nosso objetivo é mostrar como esse sentimento pode ser usado a nosso favor, sem que isso prejudique a realização de pesquisas acadêmicas confiáveis e, acima de tudo, comprometidas com o conhecimento científico.

Em primeiro lugar, é importante entendermos o que significa a famigerada objetividade científica. De modo geral, a objetividade diz respeito a tudo que é realizado de forma impessoal e relacionado ao que o objeto de pesquisa “realmente é”. Uma pesquisa comprometida com a objetividade não expõe pontos de vista pessoais dos autores ou autoras, mas busca, através da sistematização e operacionalização de dados e conceitos, produzir conhecimento baseado em evidências. Essa perspectiva se contrapõe à subjetividade que diz respeito à exposição de opiniões pessoais e juízos de valor dos autores e autoras que aplicados à pesquisa podem produzir enviesamentos prejudiciais à imparcialidade de uma pesquisa. 

Esse argumento é advindo da tradição de pensamento positivista inaugurada por filósofos como Auguste Comte e John Stuart Mill no final do século XIX na Europa. Nessa escola de pensamento, a razão é colocada acima do sentimento e o pesquisador deve evitar a todo custo envolver-se com seu objeto de pesquisa. Assim, prioriza-se a observação de fenômenos em busca da determinação de leis gerais, à exemplo do que ocorre nas Ciências Naturais – como nas leis de atração da Física e teoremas na Matemática, por exemplo. Seguindo esta abordagem, todo conhecimento deve buscar “a verdade” e para isso orientar-se por métodos de observação e experimentação sensorial e prática, feitas com base em medições, cálculos e identificação de padrões de comportamento.

Como já vimos em outro texto do Painel “BTS na Casa Branca: entre números e significados”, dados são fundamentais para a construção de bons argumentos independente da área de estudo selecionada. No entanto, em muitos casos, esta objetividade, obtida por meio do uso de dados na pesquisa, é apresentada como sinônimo de neutralidade. Entretanto, o significado de neutralidade pode ser um pouco nebuloso. Não podemos confundir neutralidade com o rigor científico característico à realização de pesquisas acadêmicas, principalmente no que diz respeito à metodologia. Foi por esse motivo, que no início do século XX, uma série de autores passaram a questionar essa pretensa “objetividade”, atribuindo condições sociais, culturais e políticas à sua produção. Assim, a dimensão subjetiva do conhecimento passou a ser considerada em um movimento levado adiante por teóricos como Karl Popper, Thomas Kuhn e outros associados à Escola de Frankfurt. Eles atribuíram grande peso a interpretação subjetiva dos fenômenos e a influência de fatores externos sobre o modo de produção de conhecimento, sendo críticos à concepção pura e simples de “objetividade” científica com pretensão universal almejada pelos positivistas. 

Seguindo essa tradição teórica, a historiadora da ciência Lorraine Daston (2017)  estabelece em seu artigo “Objetividade e a fuga da perspectiva” uma diferença entre o que ela chama de “objetividade aperspectivística” e a objetividade científica. A objetividade aperspectivística seria essa concepção de uma objetividade positivista, que almeja a neutralidade e a imparcialidade do pesquisador na busca da verdade contida em seu objeto. Enquanto que a objetividade científica, segundo a autora, possui flexibilidade e perspectiva. Ela entende que não é possível chegar a uma verdade que seja universal, pois toda pesquisa parte de uma perspectiva específica, a do pesquisador, e ela deve ser considerada. No entanto, o fazer científico se dá em reconhecer a perspectiva e partindo dela desenvolver uma teoria e metodologia que possam abranger o objeto a ser pesquisado.  

Após esta brevíssima exposição, partimos da premissa de perspectiva pensada por Daston e podemos compreender que toda escolha é motivada por algum fato ou sentimento específico, e assim, a objetividade está relacionada com a escolha do método e com a teorização e não necessariamente com o estabelecimento de uma neutralidade, ou seja, a ausência de subjetividade. 

A partir disso temos material para responder melhor a questão que foi o nosso ponto de partida: como conciliar o ser fã com o ser pesquisadore

O pesquisador de Midia e Jornalismo Matt Hills argumenta que fãs e acadêmicos não precisam ser inimigos. Ao contrário, o autor aponta que um um fã pesquisador ao estudar sobre seu objeto de admiração pode ser beneficiado pelos vínculos existentes entre ele e o fandom. Isso porque, seu estado de pertencimento a um fandom permite que ele aprenda temas, vocabulários e relações específicas a esse grupo, que um acadêmico tradicional desconhece. Ele define o fã-pesquisador como “o fã que usa a teorização acadêmica dentro da sua escrita de fã e dentro da construção de uma identidade de fã-acadêmico em oposição ao profissional acadêmico que se baseia em seu fandom como um distintivo de distinção dentro da academia”. A relação nesse caso é construída de forma dialética, o ser fã contribui para o ser pesquisadore e vice-versa. 

Esse posicionamento de Hill é relevante para pensarmos como o campo dos Estudos de Fã se construiu historicamente. Não muito tempo atrás, no começo da década de 90, as pesquisas sobre fãs ainda faziam parte dos chamados Estudos Culturais, e buscavam analisar a “patologia das manifestações dos fãs”, isto é, o seu comportamento inadequado, que fugia à normalidade, como apontou pela comunicóloga Sara Costa em sua tese “Fanworks de fanworks: a rede de produção dos fãs” (2018, p. 24).  A mudança desta perspectiva acerca dos estudos de fãs foi inaugurada pelo comunicólogo estadunidense, Henry Jenkins  (1992, p. 88) com seu livro “Textual poachers: television fans and participatory culture”, que situou o fandom como “a primeira e maior instituição de teoria e crítica” ao trabalho de seu objeto de admiração. Hill, seguindo a tradição de Jenkins ao tratar de aproximar de pesquisadore, demarcou um novo movimento nos trabalhos acadêmicos sobre o tema, a mudança da percepção sobre o que é ser fã e seu lugar na academia. Esse é exatamente o tipo de trabalho que o BAA se propõe a fazer: teorizar e produzir conhecimento sobre o BTS com base na experiência de ser ARMY. 

Agora que entendemos toda essa teoria, como colocamos tudo isso em prática? Vamos pensar alguns exemplos: Se eu escolho estudar as críticas feitas ao sistema educacional coreano presentes na trilogia escolar do BTS, por exemplo, foi porque de alguma maneira esse fato me chamou a atenção em comparação a outros presentes na discografia do grupo. O recorte quanto ao objeto selecionado já reflete uma escolha pessoal, uma perspectiva da qual estamos partindo, que inclui o “ser fã”. O que vai determinar o resultado e a qualidade do trabalho é o modo como vamos analisar essa escolha. Não podemos, pura e simplesmente, atribuir juízos de valor ao nosso objeto de estudo. Por juízo de valor entendemos os julgamentos que são elaborados a partir de concepções individuais, geralmente relacionados a questões morais. Por isso, nossa primeira recomendação é: atenção à escolha de palavras e ao formato da escrita! Existe uma diferença entre dizer: “O BTS é o maior grupo coreano da atualidade” e “Segundo dados levantados, o BTS foi o grupo que mais vendeu discos em 2021. Em comparação aos principais grupos em atividade, o grupo foi o que mais alcançou o topo dos charts dos Estados Unidos, um fato inédito até então”. Os dados são hipotéticos, mas o ponto aqui, é mostrar que a forma como escrevemos algo muda todo o formato do argumento. Na primeira sentença nós afirmamos algo com base no que acreditamos (e defendemos enquanto fãs), enquanto na segunda, afirmamos algo com base em evidências.  

Nossa próxima recomendação é: atenção à escolha do seu objeto e dos métodos que irá utilizar em sua pesquisa. Na definição do objeto devem ser consideradas três fronteiras: espacial, temporal e relacional. Se respeitadas essas fronteiras, torna-se menos manipulável em relação às observações e coleta de dados. 

Outro ponto de atenção é com relação ao vocabulário e terminologias utilizados na pesquisa, que podem não se adequar ao vocabulário acadêmico. O universo de fã possui vários termos próprios que, muitas vezes, não estão inseridos nas terminologias acadêmicas. Ao nos propormos uma pesquisa científica, devemos fazer escolhas sobre cada expressão a ser utilizada. Em algumas áreas, as da saúde, por exemplo, empregar palavras como ARMY ou mesmo fandom é inadequado para a pesquisa. Nas áreas de humanidades, já é possível o uso desses termos, no entanto eles devem ser muito bem justificados e explicados. A fim de auxiliar Aca-ARMYs a se aprofundar melhor em termos que são muito comuns ao universo de fã, mas que ainda são recentes no mundo acadêmico, o Painel Como Fazer está produzindo o Minidicionário da ARMY Acadêmica. Vocabulários como Hallyu, K-Pop, idol, ou geração estão no cotidiano do ARMY, mas nos artigos do Minidicionário apresentamos como utilizá-los em uma pesquisa a partir de uma fundamentação teórica e bibliográfica. 

Ainda há a dificuldade do pesquisador como fã em não ser inserido no campo do projeto, mesmo que ele não se identifique ou não seja incluído previamente na situação, o modo de interpretar o material sem exacerbar a representação do seu universo experimental poderá refletir nas justificativas, escolhas e direcionamento ético. 

Por conta disso alguns autores optam por pesquisas qualitativas que investigam a interpretação de escolhas teóricas e metodológicas, em que no geral, são consideradas possíveis avanços da pesquisa mas ao mesmo tempo gera uma insuficiência metodológica por falta de informações de cunho científico ou por releitura de uma proposta preexistente. 

Dito tudo isso, por que escolher entre ser fã ou pesquisadore? Podemos, sim, ter o melhor dos dois mundos!

REFERÊNCIAS

AMARAL, A. Etnografia e pesquisa em cibercultura: limites e insuficiências metodológicas. Revista USP, n. 86, p. 122-135, 2010.

CUPANI, Alberto. A objetividade científica como problema filosófico. Cad. Cat. Ens. Fís. , Florianópolis, 6 (Número especial): 18-29, jun. 1989.

DASTON, Lorraine. Historicidade e objetividade. São Paulo: LiberArs, 2017

HILLS, Matt. Fan Cultures. London: Routledge, 2002. 

JENKINS, Henry. Fan Criticism. In: ___. Textual poachers: television fans and participatory culture. New York and London: Routledge, p. 88-121, 1992. 

COSTA, Sara. Fanworks de fanworks: a rede de produção dos fãs. Porto Alegre, 2018. 258 f. Tese (Doutorado em Comunicação) Instituto de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

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