Mini Dicionário da ARMY Pesquisadora: Geração

Autora: Maria Luiza Schaffer Isnard

Revisor(a): Ariely Medeiros e Mariana Lima

Na semana passada, trouxemos as definições de K-Pop e Idol abordando como o gênero musical e a indústria foram criados e se fortaleceram ao longo do tempo. Agora passaremos para a explicação do conceito de “geração”.

Até hoje, a ideia de geração dentro do K-Pop suscita fortes debates e ainda continuamos longe de uma conclusão sobre o tema. Isso porque, as mudanças nas tendências musicais e visuais não mudam de um dia para o outro. A indústria do K-Pop não esperou um dado grupo debutar para que houvesse uma mudança na sua forma de se pensar e produzir, ao mesmo tempo que as contribuições das gerações anteriores não desaparecem com o surgimento de uma nova. Por isso, não é de se estranhar que entre grupos da segunda geração hajam traços da primeira, por exemplo.

Em resumo, a ideia de geração é muito flexível. Pensando nisso, trazemos aqui duas das classificações mais usadas. A primeira usa como critério de divisão o período que o artista debutou, assim como as tendências que seguia, e a outra pelas mudanças do seu público-alvo.

1. Primeira Geração.

Apresentação do grupo Seo Taiji and Boys (1995)
Clipe do grupo H.O.T. (1996).

A primeira forma de classificação situa a Primeira Geração entre 1992 e 2003, iniciada com o grupo Seo Taiji and Boys, que introduziu novos estilos musicais como hip hop e o New Jack Swing, com coreografias e performances de grupo contagiantes. Sendo seguido pelo H.O.T., que estreou o modelo de produção de idols, com fortes inspirações no pop estadunidense e japonês. Os estilos da época transitavam entre techno, hip-hop, R&B dos anos 90 e, claro, a música popular coreana. O recorte que os pesquisadores que seguem o segundo critério de classificação nesse momento não é tão distinto em questão de tempo, mas seu enfoque é no esforço da indústria do K-Pop em conquistar o mercado interno, que muda de direção a partir da crise de 97.

2. Segunda Geração.

Clipe de debut do grupo SNSD (2007).
Clipe do grupo BIGBANG (2006).

Já a Segunda Geração, no primeiro critério, se dá entre 2004 e 2012 com a formação de grupos como o BIG BANG, Super Junior, SNSD e o Wonder Girls, no modelo de produção de idol ainda mais bem estabelecido. Adotam novos estilos musicais, como o Soul no caso do Wonder Girls, criam tendências cada vez mais inovadoras, como o lightstick do G-Dragon, e contando com artistas cada vez mais sincronizados e multitarefas (FLOR, 2019, p.47-48) (LEUNG,2017, p.92). Nesse momento, a indústria conquistava o mercado regional no leste asiático e começava a se inclinar para os Estados Unidos. Uma das características que auxiliaram esse avanço foi a inserção do aprendizado do idioma e de alguns traços culturais do país do mercado que se pretendia adentrar. A artista BoA, por exemplo, até mesmo viveu por algum tempo no Japão com esse objetivo. Sobre esse tema uma ótima referência é o documentário K-Pop Evolution lançado em 2021 pelo Youtube Originals.

3. Terceira e Quarta Geração.

Clipe de debut do BTS (2013), grupo da terceira geração.
Clipe do TXT (2022), grupo da quarta geração.

A discussão fica acirrada nas classificações de Terceira e Quarta Gerações. Há  autores que tratam de ambos movimentos como um só, voltado ao mercado global e há quem os divida em função das diferenças nas tendências e nos períodos de debut. Essa segunda linha de interpretação demarca o período entre 2013 e 2017 com grupos como o BTS, Blackpink e o GOT7, marcados pela popularização do YouTube como meio de consumo musical — tornando seus trabalhos cada vez mais visuais e com engajamento do público ainda maior que possui mais meios de reproduzi-los e debatê-los (CUNHA; KERTSCHER, 2019, p. 85). Ana Filipa Flor (2019, p.74), mestra em design e cultura visual, em sua tese “A cultura do K-Pop: uma investigação sociocultural da Coreia do Sul, da sua indústria musical e dos produtos audiovisuais do grupo BTS entre 2013 e 2020” também atenta para uma mudança no vestuário dos grupos, em relação às demais gerações que, a partir desse momento, deixaram de ter obrigatoriamente “o mesmo tecido ou padrão”. Diferenciando-a da Quarta Geração, iniciada em 2018 e ainda ocorrente, que teriam de se adaptar ao formato de consumo do mercado musical — os serviços de streaming — e a ascensão do TikTok, além de trazerem “coreografias cada vez mais complexas, sons mais experimentais e um nível visual extraordinário” (FLOR, 2019, p. 54). 

O ponto de acordo entre ambas classificações sobre essas gerações é o caráter transnacional dos seus artistas que levaram o K-Pop e a cultura coreana ao mainstream mundial.

4. Conclusão

Existem ainda diversas linhas de interpretação que enfatizam outras características da indústria do K-Pop ao longo do tempo, afinal — além de se tratar de um fenômeno ainda em movimento — as mudanças na indústria não esperaram que os pesquisadores ditassem quando elas poderiam ou não serem realizadas. De forma que cabe a cada pesquisador escolher o recorte que julga melhor se adaptar à sua linha de pesquisa.

Gostou desse verbete? Confira também as nossas postagens anteriores!

Bibliografia

CUNHA, Adriana.; KERTSCHER, Laiza. A imagem na indústria fonográfica: como o k-pop conquistou o mercado da música ocidental. Belo Horizonte: Revista Científica de Comunicação Social do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), v.12, n.2, p. 76-102, jul./dez. 2019.

LEUNG, Lisa Yuk-ming. #Unrequited Love in Cottage Industry? Managing K-pop (Transnational) Fandom in the Social Media Age. In: JIN, Dal Yong; YOON, Tae-Jin. The Korean Wave: Evolution, Fandom and Transnationality. Maryland: Lexington Books, p. 87-105, 2017. 

BLOCH, Marc. A análise histórica. In: _____. Apologia à história.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p.113-141.

SOLOMONS, Mary. Multivariate Analysis of Korean pop music audio features. Ohio: p. 1-5, 2021. 

FLOR, Ana Filipa. A cultura do K-Pop: uma investigação sociocultural da Coreia do Sul, da sua indústria musical e dos produtos audiovisuais do grupo BTS entre 2013-2020. Orientador: Flávio Almeida.  Dissertação (Doutorado). p.274, 2020.

ISSO não é uma treta de gerações. Entrevistadoras: Bárbara Dewet e Érica Imenes. Entrevistadas: Daniela Mazur e Tássia Assis. [S.l.]: Kpapo, jan. 2021. Podcast.  Disponível em: <https://open.spotify.com/episode/6T3otQzE985z12hIDlv9ua?si=7c9c2baaf6124cf7>. Acesso em: 29 jun. 2022.K-POP Evolution. Youtube, 31 mar. 2021. Disponível: <https://youtu.be/HerU6Gzn_O4>. Acesso em: 2 jul. 2022.

4 Comentários

  1. É muito legal acompanhar alguns grupos mais antigos e como eles foram se adaptando a cada mudança da indústria musical, tanto nas roupas quanto no estilo das músicas.
    Lendo o verbete bate até um arrependimento de não ter mergulhado no kpop antes!

    • Painel Como Fazer

      Sim, a gente por aqui tem esse mesmo sentimento! A gente costuma fazer os textos e pesquisas ouvindo esses artistas pelo spotify, aí quando vê a gente acaba viciado em um grupo dos anos 90 e 2000. É uma experiência bem legal ver a construção do K-Pop a partir dos clipes/ músicas

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