ARMY with Letter: A divulgação através de uma construção temporária

Imagem 01: Divulgação do projeto. Fonte: Koreaboo.

Autora: Nathália Escobar
Revisão por: Ariely Medeiros e Mariana Castro

Oii, visuais! Tudo tranquilo por aí? Por aqui, tá tudo de boa e espero que por aí também!!

Vocês podem ter percebido, os conteúdos do painel visual estão um pouco diferentes do usual, não estamos focando apenas nos MVs. E como gostamos de diversificar um pouco, hoje falaremos sobre o “ARMY with Letter” (na tradução literal, ARMY com Carta).

Porém, antes, você já ouviu falar de arquitetura efêmera? Esse termo exemplifica uma construção que se baseia na temporalidade. Segundo Monasterio (2006), 

“Assim como a transitoriedade, a imaterialidade ou efemeridade dos componentes arquitetônicos, os sinais e mensagens emitidos através da arquitetura são características presentes nas diversas tipologias da arquitetura efêmera. Essas tipologias podem ser classificadas em atividades sócio-político-culturais ou atividades comerciais”

(Monasterio, 2006. p.11)

E o projeto ARMY with Letter, criado pela Weverse, é exatamente isso: uma arquitetura temporária com a tipologia comercial e de negócios, mas que tinha como proposta a criação da carta mais longa do mundo e, assim, incentivando o fandom a se cadastrar no aplicativo.

Utilizando a plataforma – até então recém criada – para receber, selecionar e compilar as mensagens do ARMY, as cartas eram enviadas para as impressoras que se encontravam dentro da cabine (Imagem 02). 

Imagem 02: Cabine do Army with Letter. Fonte: Ferreira.

No período que a caixa ficou exposta para o projeto do BTS, de 17 de julho até 04 de agosto de 2019, foram impressas em tempo real, mais de 100 mil cartas com a hashtag “#TO_BTS” no Weverse. Em caso de curiosidade, clicando na frase em destaque, você será direcionado para o vídeo oficial da visita deles à cabine: Army with Letter – BTS.

GIF 01: Recados que o BTS deixou na visita da cabine. Fonte: Youtube.

Por mais que tenha sido interessante do ponto de vista da interação entre a empresa Big Hit Entertainment (atual HYBE Entertainment) e o fandom, segundo o portal Koreaboo (2019), alguns ARMYs não participaram por princípios socioambientais, alegando que o desperdício de papel provocado foi desnecessário, tendo em vista o objetivo principal do projeto. Afinal, a empresa criou algo digital, por que não utilizou o mesmo meio para o projeto? E a resposta provavelmente será “é uma decisão de marketing”, para incentivar o cadastramento e o uso das pessoas dentro da plataforma.

Resumidamente, acredito que você já esteja por dentro dos principais assuntos da época, porque adiante falarei mais sobre a construção e estrutura da cabine.

GIF 02: Impressão das cartas. Fonte: Koreaboo.

Antes de mais nada, temos dois avisos: É importante dizer que quando se estuda um projeto arquitetônico, geralmente há uma lacuna de informações que só pode ser preenchida com as plantas que são divulgadas pelos responsáveis da obra. No caso da estrutura da cabine, é a mesma coisa.

Já o segundo aviso, é que por não ter um único método de pesquisa acadêmica,  um estudo de caso projetual pode partir de diversas maneiras. Por exemplo, na área da arquitetura e urbanismo, temos Martins (2016) que utiliza a análise gráfica para compreender o partido arquitetônico do projeto ou Cruz (2018) que simplificou em seu artigo uma forma de nove passos para ter um estudo de caso completo.

Portanto, nessa análise do “ARMY with Letter”, não se pode confirmar nenhum dado, pois os documentos não foram divulgados pelos responsáveis, então apenas será possível levantar hipóteses com as fotos e vídeos tiradas da construção, além de seguir uma sequência lógica e empírica para analisar a cabine, não seguindo necessariamente os métodos citados.

Imagem 03: A “caixa” durante o dia. Fonte: Koreaboo.

Ao me deparar com a caixa (imagem 03) que é a cabine montada, fiz algumas perguntas, como: “Por que a estrutura é metálica? E por que o vidro colorido?”, “Por que foi construído perto do Rio Han?”, “Se eu pudesse visitar o lugar, como eu iria?” ou “O que tem ao redor dessa cabine?”. 

E quem me ofereceu algumas respostas foi o próprio Governo Metropolitano de Seul na regulamentação “Ordinance on Building”, que são as normas regulamentares referentes à construção civil da capital Seul.

Imagem 04: Artigo 17 do “Ordinance on Building” que fala sobre as obras provisórias. Fonte: Seoul Legal Administration Services. 

O artigo 17 da mesma lei (imagem 04) fala sobre as construções temporárias, e nele descreve que, em resumo:

  • As construções temporárias não podem ser estruturadas com concreto ou com vergalhão de aço;
  • O período que a instalação pode ficar é do máximo 3 anos, salvo aquelas que são consideradas relevantes para o planejamento urbano;
  • Deve ter no máximo 3 pavimentos;
  • A construção não deve demandar uma nova instalação de infraestrutura (como eletricidade, hidráulica e gás);
  • A construção não pode ter o objetivo de vendas comerciais ou de unidades habitacionais.

E devido a essas normativas descritas, a Big Hit, na época, deve ter levado em conta os locais que já tinha disponível toda infraestrutura que fosse necessária para a instalação da cabine. O que resultou em ser construído, por fim, no turístico Seoul Marina Club & Yacht.

Imagem 05: Seoul Marina Club & Yacht. Fonte: Seoul Marina Club.

O clube de iatismo, projetado pelo escritório de arquitetura EGA GROUP, foi pensado em atrair os esportistas, mas também outros públicos. Nele há restaurante, café, salas para eventos e conferência, terraço, lounge e outros espaços de apoio técnico e administrativo, além de ter um estacionamento para os visitantes.

Imagem 06: Edifício principal do clube de iatismo. Fonte: EGA GROUP.

Ainda sobre a localização do clube, o governo de Seul com o seu zoneamento¹ (imagem 07), revela que o mesmo se encontra em uma zona chamada “Green Belt Zone” (ou Cinturão Verde²), que é perto também da zona comercial, onde se encontra uma estação de metrô que passa a linha 09, além de algumas linhas de ônibus, o que facilitou a ida do ARMY que fosse de transporte público.

Imagem 07: Localização do clube nos mapas de Seul. Elaboração Própria. Base: Naver, 2023; KIM, 2017.

Pelo projeto se localizar em um lugar com a natureza preservada, os arquitetos construíram uma arquibancada na área externa ao edifício, por isso previram os equipamentos de infraestrutura, como eletricidade e hidráulica no lado de fora e assim não sendo necessário adaptações posteriores, além de aproveitar a paisagem natural do rio Han para ter diversas atrações ao ar livre (imagem 08).

Imagem 08: Render 3D do projeto, vista projetada do lado externo. Fonte: EGA GROUP.

Outro ponto interessante é que além de ter sido local que abrigou a cabine, também foi o lugar do projeto do grupo Tomorrow X Together (TXT), com a caixa “FlyTXT”, em um período anterior ao projeto “ARMY with Letter”, entre os dias 26 junho a 14 de julho de 2019.

Imagem 09: Cabine “#FlyTXT”. Fonte: “TXT WORLDWIDE”

Sobre o projeto “FlyTXT”, o princípio é o mesmo, a divulgação do Weverse, mas pelo fandom do TXT: “Moments of Alwaysness” (MOA). No período que ficou ativo, as cartas eram colocadas dentro da cabine, fazendo parte da decoração (Imagem 10).

Imagem 10: Cartas para TXT dentro da cabine. Fonte: “Letter for Beom”

Segundo o portal de notícias Allkpop (2019), no FlyTXT, as cartas eram impressas no lado de fora e dobradas em forma de avião pelos funcionários. O contêiner serviu também como uma sala para os trabalhadores, em ambos os projetos (imagem 11).

Imagem 11: Contêiner onde as cartas eram impressas e dobradas pelos funcionários. Também serviu como uma sala de descanso. Fonte: “_youandain”

Já com o ARMY with Letter, a carta era impressa, dobrada e organizada dentro da própria cabine (imagem 12).

Imagem 12: Projeto “ARMY with Letter”. Funcionário pegando o papel impresso dentro da cabine e no lado externo, a fila com os fãs esperando para tirar fotos. Fonte: “Korealog TV”

No fim do projeto, houve uma discussão sobre o que foi feito com as cartas do ARMY, pois uma foto foi publicada no site The Qoo, na qual se observa os papéis jogados no chão, sem cuidado nenhum.

Imagem 13: Foto das cartas impressas, jogadas no chão. Fonte: TheQoo

Entretanto, segundo o perfil “Ktaebwi_613” nos comentários da própria postagem, essa foto seria tendenciosa, pois os funcionários estavam debaixo do sol para dobrar cuidadosamente as cartas e a imagem teria sido tirada apenas no local onde não estava organizado.

Mas voltando à estrutura metálica, por ser a mesma cabine, as diferenças entre elas estão nos detalhes mais decorativos, como observamos nas fichas técnicas abaixo.

Ficha Técnica

  • Período: 26 de junho a 14 de julho de 2019;
  • Decoração: Caixas quadradas com os símbolos do grupo, os aviões de papel preenchendo o espaço, tanto no piso quanto pendurado, além de ter alguns displays ligados à tomada;
  • Acabamentos: Estruturas metálicas em branco, fachadas de vidro incolor com adesivo jateado, também com o símbolo do TXT;
  • Escada: Estrutura metálica em branco e com adesivo amarelo, os vidros ao redor com películas azuis, porém, no patamar, o vidro é incolor com adesivos em branco;
  • Iluminação: No piso e no teto, e o letreiro luminoso.

Ficha Técnica

  • Período: 17 de julho a 4 de agosto de 2019;
  • Decoração: Faixas penduradas com símbolos do Weverse e alguns recados no verso, outras cartas dobradas no piso, preenchendo o espaço;
  • Acabamentos: Estrutura metálica em branco, fachadas de vidro rosa com adesivos brancos ou jateados com símbolos do BTS;
  • Escada: De estrutura metálica em branco, decoradas com placas formando o símbolo do grupo, os vidros ao redor são incolores, assim como no patamar, com uma fresta para a saída do papel diretamente da impressora, há um painel do Weverse servindo de proteção para a impressora;
  • Iluminação: No piso e no teto, e o letreiro luminoso.

Um pouco mais sobre a cabine

Com o resumo das principais diferenças de cada um dos projetos, a partir de agora falaremos especificamente sobre a estrutura montada.

Imagem 16: Caixa ARMY With Letter demolido. Fonte: Theqoo.

Ao nos depararmos com a imagem 16, com a demolição da estrutura, percebemos algumas coisas que provocaram dúvidas e outras que confirmaram as hipóteses criadas, como a afirmação de que a estrutura era metálica e tubular.

Imagem 17: Diferenças de elementos dentro da construção civil. Fonte: Redfer; Mapa da Obra; Aparecida Tubos.

Conforme dito antes, as cabines não poderiam ser construídas com concreto (os blocos, por exemplo) ou vergalhão de aço. A escolha da estrutura metálica de tubo de aço estrutural (imagem 17) foi uma alternativa que permitiu algumas vantagens, por ser mais leve e resistente, fácil de manusear, transportar e montar. 

Segundo o Prof. Dr. Eng. Civil Yopanan Rebello (2000), em seu livro A concepção Estrutural e a Arquitetura, pelo aço ser um material utilizado em estruturas, a construção dela ocorre em duas fases: na fabricação (em uma indústria especializada) e na montagem (no canteiro de obra). Em ambas as situações é exigido uma mão de obra qualificada, devido aos detalhes técnicos.

Rebello (2000) escreve que, pelo aço sofrer influência do meio ambiente, pode deteriorar facilmente e, assim, precisar de proteção, que pode ser a tinta ou os revestimentos metálicos (galvanização), para se tornarem resistentes às intempéries e à corrosão.

Ele diz também que seções tubulares ou fechadas — que é o caso da cabine —  exigem um cuidado maior, principalmente porque a deterioração pode ocorrer de dentro para fora do tubo e não ser percebida. Nesses casos, Rebello (2000) acrescenta que é mais seguro o uso de aços resistentes à corrosão, mesmo que encareça ainda mais a obra.

Sobre a outra fase da construção com aço: a montagem, o Weverse disponibilizou um vídeo em que vimos a transição de FlyTXT para Army with Letter.

Vídeo 01: Divulgação do “Army with Letter”. Fonte: “minsuga_31”

Na introdução desse vídeo, observamos a movimentação dos funcionários e a troca dos projetos: a retirada do letreiro “#FLYTXT” para a colocação de “#ARMYWITHLETTER”.

GIF 03: Introdução do vídeo, mostrando a colocação do letreiro “Army With Letter”. Fonte: “minsuga_31”.

Além da retirada dos adesivos nos vidros e nas escadas, os retoques com tinta e, principalmente, a colocação da película rosa no vidro da fachada.

Vídeo 02: Introdução do vídeo, mostrando a troca dos adesivos e a colocação da película rosa. Fonte: “minsuga_31”.

Como a estrutura metálica é considerada limpa, devido ao aço ser 100% reciclável, não há necessidade de formar entulho. O que não foi o caso da demolição da cabine do Weverse, que não foi uma das mais organizadas. Podemos observar na imagem 18 o amontoado de cacos de vidro, as películas no chão, além dos perfis metálicos jogados ao lado da escada, de maneira que poderia machucar qualquer pessoa no local. 

Imagem 18: Cabine destruída. Fonte: Theqoo

Discussão Final: A arquitetura efêmera

Dentro das discussões sobre as construções temporárias, a arquitetura efêmera vai muito além do marketing. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), através da publicação da revista Móbile, dentro dessa área há algumas discussões interessantes em volta de sua definição, devido às características de construção e de temporalidade. 

No artigo, ao discutir a transitoriedade dessa arquitetura, citando algumas obras, como o caso da Arena do Futuro no Rio de Janeiro (RJ), é dito que “A estrutura, supérflua após a Olimpíada, pode ser desmontada e, segundo promessa de governo, reutilizada na construção de quatro escolas municipais.” (CAU, 2017. p. 41).

Ao colocar para os leitores que o conceito ainda é indefinido, principalmente quando ela é pensada em uma continuação, pois de acordo com o senso comum, a definição de arquitetura transitória deveria acabar em um determinado tempo. 

“Segundo [Daniel Mellado] Paz, há dois paradoxos no tema: uma Arquitetura só se torna efêmera de fato quando se desfaz de um dado lugar. Conceitualmente, existe apenas quando cumprida sua efemeridade, tudo o mais é incerteza. O segundo: não há, portanto, relação direta entre a tecnologia construtiva e a efemeridade real da construção.”

(CAU, 2017. p. 42-43).

O artigo comunica que “há quem diga também, em tom crítico, que na sociedade contemporânea incita-se uma necessidade intensa de consumo por meio de um vigoroso jogo de marketing e publicidade”, e acrescenta que esse tipo de arquitetura tem “uma importância na cultura contemporânea por buscar respostas transitórias.” (CAU, 2017. p. 43). 

Se levar em conta a definição de Paz (2008) “Então, para a configuração ser transitória, ou o objeto é provisório em sua própria constituição (para além de sua mera situação) ou ele é nômade”. No caso da Arena do Futuro, ela poderia ser classificada como uma Arquitetura Nômade.

Diante dessa discussão, acredito que a nossa cabine e seus projetos sejam transitórios, até mesmo pelo motivo por qual ela foi criada, porém retornamos àquelas perguntas feitas pelo ARMY, sobre o rolo de papel das cartas e a utilização delas ao fim do projeto.

A estrutura foi reutilizada posteriormente? O aço foi reciclado? Por que o vidro foi quebrado no local? Por que aquela bagunça toda foi feita? Não poderia ser mais organizado? Essas e outras perguntas, pelo que vimos, ainda não se têm respostas.

Aos Visuais que chegaram até aqui, queremos saber quais foram suas impressões sobre ela, você acha que ela se encaixaria como uma arquitetura nômade? Ficaram surpresos com algo? Compartilhe a sua opinião aqui nos comentários ou nas redes sociais e marque a gente por lá, vamos amar saber a sua opinião sobre a cabine e os projetos. 

Para quem ainda quer saber mais sobre a cabine, um spoiler: em breve teremos a parte dois desse texto, apenas com alguns experimentos visuais com os detalhes técnicos da estrutura. Esperamos vocês por lá 💜

Glossário

¹ Zoneamento: Instrumento de planejamento urbano, aplicado no sistema legislativo. É uma forma de analisar e regularizar o uso e ocupação do solo dos bairros de uma cidade.

² Cinturão Verde: Em inglês Green Belt Zone, é um termo criado para designar uma região da cidade destinada à preservação da natureza e da mata ciliar, podendo ter atividades econômicas inseridas na região. No Brasil, temos o Parque Estadual Serra do Mar, no estado de São Paulo. É um local que visa a conservação da Mata Atlântica, no qual as cidades de São Bernardo do Campo e Cubatão promovem atividades turísticas como trilhas e caminhadas para aproximar o público com o espaço protegido.

Referências

Um comentário

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