Paralelos interseccionais: a reflexão lírica dos cisnes

Yasmin Chung
Revisado por: Isabella Teles e Laura Mello

“Um dançarino morre duas vezes — uma quando para de dançar, e essa primeira morte é a mais dolorosa.”

— Martha Graham
Imagem 1
Fonte: YouTube

Durante o primeiro trimestre de 2020, o septeto sul-coreano, BTS, lançou o primeiro single do álbum “Map of the Soul: 7”, “Black Swan”, com o Art Film (17/01/2020) e o videoclipe oficial (04/03/2020). A faixa trouxe um teor mais sombrio e vulnerável, expondo inseguranças e medos dos artistas quanto ao seu fazer artístico: um dia a sua música deixará de movê-los (Spotify, tradução nossa). “Black Swan” é uma confissão sobre o verdadeiro pulsar da música em suas vidas.

As marcas do balé clássico em “Black Swan

A referência à dança e, principalmente, ao balé, faz-se extremamente perceptível na produção de “Black Swan”. A estética do videoclipe oficial, situado no antigo Los Angeles Theatre, o uso de corpetes em algumas de suas vestimentas — comuns em figurinos de balé — são fatores que contribuem para essa associação. Além disso, a citação de Martha Graham, nome consagrado da Dança Moderna, que abre este texto e o Art Film (uma vídeo-coreografia de dança contemporânea) revelou-se o mote para a criação da música. Por fim, por compartilhar o mesmo nome que o aclamado filme “Black Swan” (2010), suspense psicológico estrelado por Nathalie Portman, Mila Kunis e Vincent Cassel, em que o enredo se constrói a partir da produção do balé “O lago dos cisnes”, tangenciando diversas questões sobre saúde mental, relações de poder e, também, como uma metáfora ao perfeccionismo artístico no mundo da dança.

Imagem 2: Tutu Odette vestido por Vergie Derman na produção de “O lago dos cisnes” (1971) do The Royal Ballet
Fonte: ROH Collections 
Imagem 3: Em destaque: corpetes utilizados para composição dos figurinos de Jimin e Jung Kook
Fonte: YouTube

O lirismo reflexivo de “Black Swan” pode remeter à história do balé no início do século XX, em que o cenário de instabilidade política na Europa — Belle Époque e a Primeira Guerra Mundial — influenciou diversos âmbitos sociais, como a esfera artística.  O balé clássico experimentava, desde o final do século XIX, declínio em sua forma e popularidade na Europa Ocidental, ao passo que as vanguardas européias construíam-se e se consolidavam. Foram devido às transformações propostas e disseminadas pelo Ballets Russes, que este tipo de dança pôde ser revitalizada.

Os Ballets Russes foram uma das mais famosas companhias da história do balé clássico. Em 1909, foi fundada e dirigida por Sergei Diaghilev, um intelectual entusiasta das artes. A companhia tinha o intuito de fazer conhecidas a cultura e arte russas pelo restante da Europa. Apesar do nome, os Ballets Russes nunca se apresentaram em solo russo, atuando, sobretudo, em Paris. Os balés de Diaghilev eram curtos, de maneira a diminuir os custos de produção e viagem da companhia. A técnica dos bailarinos era diretamente influenciada pelo estilo Cecchetti: italiano, virtuoso e acrobático, uma vez que todos eles foram alunos de Enrico Cecchetti. Assim, é com o Ballets Russes que a tradição do balé clássico retorna à Europa.

“Num período de vinte anos, entre 1909 e 1929, Diaghilev e os seus bailarinos reuniram a energia e a vitalidade do ballet russo e devolveram a dança clássica à primeira linha da cultura europeia. Ao mesmo tempo, obrigaram o ballet imperial a largar a sua roupagem oitocentista e a assumir as novidades do modernismo.”

— HOMANS

Os Ballets Russes apresentaram cinco fases, as quais acompanham seus coreógrafos: Mikhail Fokine (1909-1912), Vaslav Nijinsky (1912-1914), Leonide Massini (1914-1920), Bronislava Nijinska (1922-1924) e George Balanchine (1925-1929). Os cinco coreógrafos da companhia, cada qual com seu estilo, transformaram e inovaram a estética clássica. A companhia retornou com o virtuosismo na técnica clássica — “virtuosismo” ou “acúmulo de habilidades corpóreas”, aqui se refere a uma dança pautada mais pela forma do que necessariamente pelo conteúdo ou conceito do movimento ou da própria coreografia em si, característica muito criticada pela dança moderna — no entanto, sem perder o sentido da dança.

Ademais, percebe-se uma clara influência de motes externos ao mundo da dança no balé, que pode ser observada na mescla com a dança moderna e a consistência histórica de Fokine, no rompimento com a técnica clássica e a sexualidade sempre presente com Nijinski. Na associação do balé às vanguardas, com cenários esplêndidos, estilo de Massini; na austeridade de Nijinska, a única mulher a ocupar o papel de coreógrafa da companhia. Abordava temas e ambientes inusitados, fora do comum, do esperado pelo público. Na transformação para o neoclássico de Balanchine. Os Ballets Russes foram de exímia importância para o processo de desconstrução da dança clássica e, somado a influências mais recentes e de outros estilos também, para a formação da atual dança contemporânea.

A necessidade de transformar a tradição

Mikhail Fokine (1880-1942) foi o primeiro coreógrafo da companhia Ballets Russes. Extremamente influenciado por outras linguagens artísticas, como a música, o teatro e as artes plásticas, questionava os antigos dogmas do balé clássico: por qual razão os bailarinos dançavam com as costas tão eretas e os pés demasiadamente apontados para fora? Onde foram parar as inclinações e curvas observadas na pintura e escultura? Por que o corpo de baile deveria se dispor em formações extremamente rigorosas e geométricas?

“O ballet, concluiu, estava irremediavelmente confuso: ele achava um disparate que bailarinas de tutu cor-de-rosa andassem a correr pelo palco com camponeses de trajes egípcios ou botas de cano alto russas. Um bailado, afirmava ele, deve ter plena unidade de expressão. Deve ser historicamente coerente e estilisticamente correto.”

— HOMANS

Fokine interessava-se pela música popular russa, aprendendo a tocar balalaika (instrumento típico russo). Viajou muito pelo território russo e europeu. Quando esteve na Suíça, conheceu um grupo de exilados políticos, os quais lhe apresentaram a literatura socialista e revolucionária. Aconselharam-lhe a afastar o balé do círculo hermético das elites e acessibilizá-lo às massas. Ao retornar à São Petersburgo, capital do Império Russo, Fokine reuniu alguns bailarinos do Mariinsky em uma sociedade filantrópica, com a finalidade de distribuir livros aos operários, além de abrir uma escola para camponeses em uma aldeia vizinha.

Foi ao entrar em contato com a dança de Isadora Duncan, que surgiu ainda mais nele a necessidade de transformação do balé clássico. Para Duncan, a dança era a própria vida, buscava nos fenômenos naturais — tempestades, ondas, ventos — a inspiração para seus movimentos. Em 1904, ela dançou em uma gala beneficente em São Petersburgo, descalça e com uma túnica grega, utilizava poses estáticas, as quais remetiam obras renascentistas, de maneira que: “Fokine ficou espantado com os seus movimentos primitivos, simples e naturais, e Nijinsky recordou mais tarde (com algum dramatismo) que Isadora abriu a porta da cela aos prisioneiros.” (HOMANS, 2012, p. 333)

“Para mim, a dança é não apenas uma arte que permite à alma humana expressar-se em movimento, mas também a base de toda uma concepção da vida mais flexível, mais harmoniosa, mais natural. A dança não é, como se tende a acreditar, um conjunto de passos mais ou menos arbitrários que são o resultado de combinações mecânicas e que, embora possam ser úteis como exercícios técnicos, não poderiam ter a pretensão de constituírem uma arte: são meios e não um fim.”

— Isadora Duncan

Em 1905, ocorreu o Domingo Sangrento, no qual  soldados imperiais massacraram violentamente civis que manifestaram-se pacificamente, pleiteando melhores condições de trabalho e mais liberdade de expressão. Esse episódio gerou grande indignação, de modo que ocorreram diversas greves, comícios e protestos em solidariedade aos manifestantes em São Petersburgo. Muitos artistas que se posicionaram a favor das manifestações perderam seus cargos. Com a emissão do Manifesto de Outubro pelo czar, mais greves foram organizadas. O documento concedia direitos civis, todavia, na prática, o poder de Nicolau II, o czar, mantinha-se centralizado.

Assim, com o desejo de ter controle sobre o futuro de sua própria arte, os bailarinos do Teatro Mariinsky organizaram sua greve, realizaram reuniões secretas e protestaram contra a má gestão imperial. Contudo, o czar fez com que os artistas assinassem uma declaração de lealdade. Com medo, Sergei Legat, professor da Escola de Teatro, cedeu e assinou o documento. Tamanha foi a culpa que sentiu ao fazê-lo, pois, para ele foi uma traição aos seus pares, Fokine, Pavlova, Nijinsky, entre outros; que o sentimento o levou a cometer suicídio. A sua morte abalou aqueles à sua volta e em seu funeral, Pavlova deixou, em seu caixão, uma coroa gravada com a frase “À primeira vítima no despontar da liberdade da arte.” Pouco tempo depois, a coreografia “A morte do cisne” surgiu.

A morte do cisne

Mikhail Fokine coreografou para Anna Pavlova “A morte do cisne”, um curto solo de dança, o qual expressava suas crenças artísticas — junto da morte do cisne, estava a morte do velho formato do balé. Dessa maneira, sob a música “O cisne”, de Saint-Saëns, a obra remete ao “O Lago do Cisnes” de Tchaikovsky, apesar de a coreografia não pertencer a nenhum espetáculo específico. Vestida com um tutu branco, Pavlova deslizava pelo palco, assim como um cisne em um lago. Sua dança era simples, curvava-se sobre o próprio corpo, enquanto os braços se movimentavam fluidamente como asas.

A dança pode ser interpretada como uma reflexão lírica sobre a morte. É possível observar a movimentação corporal, em que a bailarina defronta-se com o esvaimento da vida. Como se a cada segundo que passasse, seu corpo desfalecesse um pouco mais, até que perde, enfim, totalmente a vida para o descanso eterno. 

“O poder da dança estava exclusivamente na qualidade expressiva dos movimentos da bailarina e na maneira como ela mostrava a extinção da vida, o esgotamento da energia e alma de uma criatura de grande força e beleza.”

— HOMANS

Posteriormente, ao longo da carreira de Anna Pavlova, foram feitos filmes de “A morte do cisne”, registrando o alcance de seus movimentos.

Vídeo 1: “A morte do cisne”, coreografado por Mikhail Fokine, interpretado por Anna Pavlova
Fonte: YouTube

A coreografia ganhou diversas interpretações de artistas, cada uma  apropriando-se da obra ao dançar com suas idiossincrasias corporais, com o que “A morte do cisne” poderia significar para eles. Uma performance notável é de Maya Plisetskaya. A bailarina atestou que não representava um jovem cisne, mas sim um cisne maduro, o qual tentava, obstinadamente, resistir à ação inevitável do tempo, assim como ela o fazia.

O entendimento de uma obra artística tem sua completude quando esta encontra o seu expectador. Dessa maneira, há uma multiplicidade de perspectivas que se podem tomar sobre a arte, pois ela depende dessa confluência: o discurso do artista e a vivência do apreciador. A interpretação é dada a partir dessa reunião inusitada.

Assim, uma observação possível em relação a “A morte do cisne”, é que há um movimento de resistência, de luta, contra algo que se apresenta inevitável. Nesse caso, a morte. Essa movimentação resistiva se faz presente, também, na coreografia de “Black Swan” do BTS, complementando a letra da música e portando-se como representação de uma angústia interna de cada artista.

“O coração não corre mais
Quando escuta a música tocar
Tentando levantar
Parece que o tempo parou
Oh aquilo seria minha primeira morte
Sempre estive com medo
Se isso não pode mais ressoar
Não faz mais meu coração vibrar
Então assim talvez seja como eu morro minha primeira morte”

— BTS, Black Swan (2020)
Vídeo 2: Exemplo de movimentação de resistência
Fonte: YouTube

Nota-se que a dança é disposta, em muitos momentos, de maneira espelhada, como se representasse a reflexão sobre a relação do BTS com a música. Além disso, sugere um possível enfrentamento das questões levantadas, das angústias representadas, quando os membros são colocados um diante do outro, encarando-se face a face.

Vídeo 3: Momentos que os membros do BTS encaram-se face a face
Fonte: YouTube
Imagem 4
Imagem 5
Imagens 4 e 5: Algumas formações espelhadas da coreografia de “Black Swan”
Fonte: YouTube

A coreografia apresenta diversos momentos de movimentos mais abruptos e secos, como se houvesse algo tentando sair ou como uma tentativa de controlar esses medos transbordantes. Além disso, em consonância com a batida e letra da música, repete um movimento isolado do peito (“As batidas do coração pulsando nos meus ouvidos bump bump bump”).

Vídeo 4: Momentos de pausas e movimentos secos
Fonte: YouTube
Vídeo 5: Movimentos focados no isolamento do peitoral
Fonte: YouTube

Assim como em “A morte do cisne”, os braços em “Black Swan” representam asas e os membros do BTS, os próprios cisnes. Pode-se observar algumas referências na coreografia do grupo com algumas das peças de balé clássico.

Vídeo 6: Uso dos braços como representação de asas em ambas as coreografias
Fonte: YouTube
Vídeo 7: Movimento de rond de jambe em ambas as coreografias
Fonte: YouTube

Entretanto, diferente do balé, estes cisnes não perecem ao final de sua dança. Encontram, porém, uma maneira de sobrepujar aquilo que um dia os inquietou. O final da coreografia, retomando a movimentação inicial, entretanto, ao reverso, pode ser interpretado como uma metamorfose daquilo que os trouxe para a reflexão: o significado da música em suas vidas.

Vídeo 8 : O início e o final da coreografia
Fonte: YouTube

Referências

4 Comentários

  1. Gabriel Laranjeiras

    Que artigo interessante. Meus parabéns, gostei muito!

  2. Brenda Suelen

    Vocês são sempre impecáveis para tratar com honra e zelo as informações minuciosas do trabalho do BTS. Black Swan é minha música favorita e estou imensamente grata por ter um artigo tão completo quanto esse pra enriquecer ainda mais minha admiração pela expressão artística desse MV. Parabéns, BAA!

  3. Eu sabia que Black Swan tinha relação com ballet clássico; inclusive, como bailarina, era minha coreografia preferida do BTS. Mas eu jamais imaginaria que tantos detalhes, muito bem pensados e calculados, trariam essa sensação de estar vendo algo conhecido, mas ainda assim novo. Vocês arrasaram em explicar cada um detalhes! Que trabalho lindo, tanto das B-Armies quanto do próprio BTS! 👏🏻👏🏻👏🏻

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

MUITO MAIS

Bangtan Universe
A Narrativa Visual Na Linguagem Cinematográfica De Matrix No MV N.O do BTS

Acerca de algumas discrepâncias históricas, que não nos parecem estar de acordo com os princípios que tanto falamos e ouvimos em nosso meio social, devemos manter nossas dúvidas guardadas dentro de uma prateleira e esperar elas serem reveladas? Ou ainda devemos manter um senso crítico e questionador, que para uma sociedade moralista, o seu posicionamento seja subjugado como “rebelde e imprudente”?

Leia Mais
Bangtan Universe
Os sonhos de resistência e a Revolução dos Bichos contra as imposições coletivas

Em suma, “A revolução dos bichos” faz críticas à regimes totalitários e aponta a hipocrisia dos governantes que burlam as regras para benefício próprio. Observa-se que o livro demonstra os jogos de poder dos porcos, critica a censura e a manipulação das massas que ocorre com os animais. A educação mostra-se como um fator determinante na sociedade do livro, pois auxilia na compreensão da política e traz mais oportunidades.  

Leia Mais