RM, rkive e o colecionismo: A importância de um jovem idol no mundo da arte

Nathalia Mutz
Revisado por: Ariely Medeiros e Mariana Castro

“Viver com arte significa compartilhar uma parte da alma. Me dá, diariamente, um exemplo da vida. Me faz crescer e querer me tornar uma pessoa melhor”

— RM, GQ Japão (2023)

Ao longo de seus anos de existência, o K-Pop trouxe muitos aspectos do mundo das artes visuais para compor o seu plano de fantasia. Saindo da dura realidade do jovem sul-coreano, a indústria trouxe consigo inúmeras possibilidades de aproximação da juventude ao mundo do entretenimento. Muito se questiona se esse movimento é artístico ou não, mas não se pode negar que o interesse pelo audiovisual escalou no país, com a  valorização da cultura popular. 

Um dos maiores responsáveis pela popularização e respeito do K-Pop dentro e fora da indústria da música é o grupo BTS, que por meio de seus projetos cheios de narrativas, aproxima o ouvinte de um espaço realista, de fácil aceitação e identificação. Sendo assim, essa união de fã e ídolo — que acontece com ARMY e BTS — causa um efeito dominó em tudo ao redor do grupo.

Recebendo uma coroa que nunca foi desejada, os membros se depararam com uma enorme força e influência no público, independentemente do gênero, idade ou nacionalidade, transcendendo o que antigamente seriam barreiras.

Sendo assim, quando falamos sobre RM e fazemos uma breve pesquisa a seu respeito, vemos que suas composições trazem diferentes referências artísticas, que casam perfeitamente com os conceitos visuais criados pelo grupo junto a BigHit e diretores. 

Fonte: HYBE LABELS. RM ‘Still Life (with Anderson .Paak)’ Official MV. Youtube (2022)

Na canção Still Life, de seu álbum solo, RM introduz o conceito de natureza-morta para criar uma analogia a ser arte e estar em movimento. Natureza-morta, ao contrário do que se acredita, não são retratos de morte ou falta de vida, mas uma forma de capturar uma natureza que foi alterada. 

Eu sou natureza-morta, mas estou me movendo,
Apenas vivo agora seguindo em frente,
Um objeto inanimado que não está parado,
Broto minha flor novamente,
Não me dê nome, pois sou sem-título
(Still Life – RM part. Anderson Paak, 2022).

 

Nas redes sociais, nos deparamos com seu perfil no Instagram. 

Fonte: Instagram @rkive

Como bem observado, rkive é um arquivo intimista, no qual o jovem cantor compartilha com seus seguidores fotos e registros de momentos, lugares, pessoas e artes. Sendo uma pessoa de referências, RM sempre trouxe em seu repertório músicos de diferentes países e não é diferente quando se fala de arte. Desde galerias em Nova Iorque até o Japão, suas fotos possibilitam que os fãs viajem junto ao ídolo, observando suas obras favoritas. 

“Meu Instagram… é um tipo de curadoria. E os fãs visitam [o museu/galeria] depois que eu posto. É ótimo que as pessoas possam apreciar o gosto pessoal de alguém e querer ir até os museus para visitar. Se 300 pessoas viram a mesma obra de arte, isso são 300 sentimentos diferentes”. 

— RM, Intersections: The Art Basel Podcast (2022)

Fonte: Instagram @rkive

Suas viagens e estudos sobre o tópico despertaram o desejo de obter algumas obras para si e, ao longo dos anos, com o sucesso de sua carreira, foi possível criar um acervo pessoal de tudo o que ele acredita ser importante dividir, preservar e investir.

Ao ser questionado sobre o início dessa jornada pela revista Vogue Coréia (2023), RM respondeu:

(…) acredito que tive um momento como esse enquanto via pinturas de Monet, van Gogh e Seurat no Art Institute of Chicago. Acho que foi no final de 2018. Eu estava em turnê na época, mas decidi aproveitar o tempo livre para visitar um museu naquele dia. Quando vi aquelas pinturas famosas que só tinha visto em livros de arte ou na Internet, e realmente senti a sua matéria e a sua presença, soube que tinha feito a escolha certa. Não tenho talento artístico, por isso não pude deixar de me maravilhar, de queixo caído, com as incríveis cores e técnicas daqueles mestres artistas. Por alguma razão, fiquei bastante abalado com Um domingo em La Grande Jatte.

Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte – Wikipédia, a enciclopédia  livre
Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, Georges-Pierre Seurat (1884-1886)

Uma curiosidade sobre o quadro é que a técnica utilizada nele, feito à tinta óleo sobre tela, é a introdução da técnica impressionista por meio do pontilhismo, uma novidade na época. RM diz não ter muita experiência com as artes, mas no programa In The Soop (2020), no qual  o BTS passa alguns dias de férias em um local isolado da cidade caótica de Seul, ele trabalha durante uma tarde em um quadro usando a mesma técnica que o impressionou em 2018.

BTS's Personalities Can Be Seen Through Their Paintings From ...
Sem título, RM – 2020

Nessas viagens, durante sua longa carreira como líder do BTS, RM encontrou nas galerias e museus ao redor do mundo — conhecidos por apresentar diversos pontos de vista e histórias de suas respectivas comunidades — a oportunidade de aumentar as suas referências, o que é extremamente enriquecedor para um compositor como ele.

Durante esse processo, aproveitou para utilizar bem o dinheiro adquirido ao longo de sua jornada, colecionando as obras de arte que acredita refletirem a sua história ou a de seu povo, além de apoiar artistas, independentemente do grau e nível de fama. Entende-se que, assim como o público, army ou não, deu uma chance ao BTS, para conhecê-los além de sua origem, ultrapassando as barreiras linguísticas e culturais, RM  seleciona obras para sua coleção da mesma forma.

Nessa última década, o colecionismo ficou cada vez mais em alta e atraente para os amantes da arte, já que a evolução da tecnologia e a democratização ao acesso das coleções proporciona isso. Pelo comércio eletrônico, o colecionador também recebe informações sobre cuidados que deve ter com sua obra e como condicioná-la da melhor forma.

E não é necessário ser milionário para tal, existem formas artísticas virtuais e também o múltiplo artístico. Por exemplo, RM poderia entrar em uma galeria onde as obras expostas são gravuras, feitas com base em uma matriz que o artista cria em seu atelier. A partir dela, um número limitado de cópias numeradas é impresso, diminuindo o valor das peças, pois mais de um colecionador pode adquirir aquela impressão. O valor só aumenta caso o artista opte por destruir a matriz da obra, impedindo que novas cópias sejam feitas.

As impressões de fineart também são muito comuns. São cópias de uma arte feita em um papel fino e especial, com gramatura alta. 

Em agosto de 2022, o rapper publicou algumas fotos de uma escultura que despertou a curiosidade dos fãs. Além da obra ser grande e estar repousando dentro de seu apartamento, como se fosse parte da mobília, não foi divulgado  junto o nome. Mas isso nunca foi um problema, já que RM publica suas coleções e viagens sabendo que seus fãs resolverão esse problema em poucos minutos.

E assim foi feito, pouco tempo depois a obra foi identificada.

Imagem
(Sem título) “O bumerangue que retorna não é o mesmo que joguei”, por Roni Horn – 2013/2017

Se o idol selecionou a peça por ter a confecção iniciada no mesmo ano de estreia do BTS, não se sabe, mas o significado dessa obra e das demais que completam a coleção de Horn é muito sugestiva. O reflexo que o vidro apresenta é semelhante a um espelho d’água. A imagem bate em sua superfície, que nos devolve ela com suas deformidades. “O bumerangue que retorna não é o mesmo que joguei”. A artista apresenta a fluidez e a instabilidade da água, que não podemos controlar, mas ainda assim o ser humano tenta.

Com o lançamento de seu álbum solo, “Indigo”, o líder do BTS criou uma rotina de promoção intimista, que combina perfeitamente com o conceito de sua estreia solo oficial. O projeto foi apresentado ao público  com um pocket show na Coreia do Sul e uma performance gravada no museu Dia Beacon em Nova Iorque, onde cada performance é feita próxima a obras e instalações de arte, de artistas como Dan Flavin e Richard Serra.

Também como parte de seu projeto de promoções, RM permitiu que entrássemos em sua residência, com uma mini série de vídeos chamada “RM ‘All Day (with 김남준)”, no canal do grupo BANGTANTV. Nessa, observa-se que todos os cantos de seu apartamento estão decorados com diversas obras de arte pelas paredes, esculturas posicionadas em cantos estratégicos, variados livros e catálogos se encaixando em uma pequena e organizada bagunça. 

São muitas obras pela casa, mas ainda assim elas ficam bem com a mobília e até mesmo com o estilo próprio do artista. Ainda se sabe que não são todas as obras de sua coleção.

Fonte: BANGTANTV. RM ‘All Day with (with 김남준). Youtube (2022)

Em abril de 2024, uma parte da coleção de RM será exposta no Korean Pavilion, na 60ª edição da Bienal de Arte de Venice, onde a arte sul coreana será homenageada. 

A curadora Kim In-hye explicou: “Espero que a exposição sirva como um momento para dar uma ideia da diversidade da arte sul-coreana (…) Uma das pinturas de 1968 é, na verdade, emprestada de RM” (WOO, 2024). 

O ano de 1968 foi quando o artista abstrato Yoo exibiu suas obras pela primeira vez na Europa, em Fondazione Querini Stampalia, uma instituição de arte fundada no mesmo ano.

Imagem
RM entre duas obras de Yoo Youngkuk. Fonte: Instagram @rkive

Ser colecionador também contribui para que o mundo da arte continue vivo de forma ativa e comunicativa com o espectador a partir do momento em que essas obras, ocasionalmente, são expostas em colaboração com alguma galeria ou museu.

Em 2020, o diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MMC), Yun Bummo, comentou sobre uma das doações de RM, de 100 milhões de wons no seu aniversário, em sua coluna para o Seoul Economic Daily Journal.

A doação foi feita para a confecção de 4 mil cópias de nove tipos diferentes de catálogos de arte sobre artistas sul-coreanos, que foram distribuídos para 400 bibliotecas escolares.

“Eu espero que a juventude que reside em áreas remotas possa desenvolver sua sensibilidade artística por meio da leitura desses livros”, disse RM, de acordo com o diretor Yun.

Hoje, RM é popularmente conhecido no mundo das artes contemporâneas como um dos mais jovens e maiores colecionadores de arte do mundo, além de influenciar positivamente jovens de diferentes lugares a se interessarem por arte e pela sua preservação. A Coreia do Sul constantemente relaciona o crescimento desse interesse juvenil por arte ao BTS e seu líder que, por toda sua trajetória artística, se relaciona bem com música e arte.

Gosto de artes visuais. Aos poucos estou adquirindo pinturas de artistas contemporâneos coreanos. Por outro lado, também sou atraído por antiguidades e decorei a minha casa com peças antigas em madeira e pedra. Meu sonho é um dia ter um espaço onde possa expor minhas coleções de arte.

— RM, GQ Japão (2023)

Analogias são comuns no mundo das artes, seja pela música ou pelo visual. RM é conhecido por amá-las e por usar qualquer coisa ao seu redor e da sua vida para contar uma história ou, inquietamente, tentar descrever seus sentimentos. 

Talvez rkive seja seu coração, muito mais do que a sua mente. Isso explicaria a razão do artista, randomicamente, arquivar fotos de artes e viagens e postar outras de tempos passados. Em sua maioria, sem legendas e sem maiores explicações. Porque é assim que o artista se comunica, RM usa as imagens que posta em seu Instagram, como usa as metáforas em suas músicas.

Referências:

Um comentário

  1. Brenda Suelen

    Como sempre, impactante! A narrativa da equipe do BAA com os conteúdos que abrangem a sensibilidade artística do maior líder sul-coreano de todos os tempos, é simplesmente zelosa e inspiradora. Obrigada por dedicarem mais um espaço nesse site para trazerem mais informações sobre RM, Indigo e o universo da arte.

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