Jack In The Box encontra KAWS

Editora: Nathalia Mutz
Revisado por: Isabella Teles e Laura Mello

“Quando um dos membros está fazendo um certo tipo de música ou trabalhando em um álbum, vejo sua individualidade e sua cor, e penso comigo mesmo: Eu também tenho minha própria cor, quero revelar a minha também.”

 —  j-hope, Rolling Stone (2022)

No dia 14 de junho de 2022, o grupo BTS surpreendeu a todos, tanto fãs quanto a indústria, com o anúncio de uma pausa criativa em projetos musicais entre os sete. Sendo assim, nesse novo capítulo, cada membro terá mais tempo e liberdade para investir em suas carreiras solo e projetos, que muitas vezes, ficam dentro de gavetas esperando uma chance para respirar. Em seguida, j-hope se manifestou dando o primeiro passo ao anunciar sua estreia oficial como artista solo.

“Jack In The Box”, título de seu primeiro álbum solo oficial, teve a música “MORE” como prévia do que seria apresentado no projeto completo. A capa desse pré-single surpreendeu e alegrou diversos fãs do idol quando notaram ter sido produzida por um dos artistas mais emblemáticos da arte e design contemporâneos: KAWS.

“MORE”, capa single por j-hope. Design: KAWS, 2022 – Hybe/Big Hit Music

Como j-hope e KAWS se conectam? Como tudo começou?

Não se sabe ao certo quando foi o primeiro contato de j-hope com as obras do artista. Nas redes sociais do grupo existem publicações com datas de 2016 onde os membros apreciam exposições e obras de KAWS.

j-hope visita a exposição de KAWS na Galerie Perrotini – Seul (2016) https://twitter.com/BTS_twt/status/740091038455324672

A partir daí, entre exposições e colecionáveis adquiridos por Hoseok  e por seu colega de grupo, RM, foi possível encontrar pessoalmente Brian Donnelly (KAWS) em 2018. 

O  momento foi registrado e publicado no Twitter, assim como todas as publicações anteriores.

j-hope e RM com KAWS, em Seul (2018)
https://twitter.com/BTS_twt/status/1019241619701182466

Dentre todos esses eventos até os dias atuais, Brian costuma ser uma das figuras famosas que constantemente participa da vida do grupo. E agora, além de já ser um ídolo para o BTS e influenciar em seu estilo e arte, tornou-se também um colega de trabalho.

Quem é Brian Donnely?

Nascido em 1974, Brian Donnelly, com nome artístico KAWS, é conhecido por suas obras em grande escala e esculturas que envolvem interpretações de personagens e momentos da cultura pop. Em meio de seus discursos e inspirações, se observa como seu trabalho é cheio de humor, cores e mensagens agradáveis. Suas obras despertam nos espectadores um senso de humanidade.

David M. Benett/Dave Benett/Getty Images/Skarstedt

O artista tem algo em comum com j-hope muito além de serem pessoas que trabalham com criatividade: ambos foram inspirados pelas artes urbanas. KAWS cresceu no meio do grafite, em Nova Jersey, próximo a Nova York, regiões que são muito importantes no desenvolvimento das técnicas desse movimento artístico. Iniciou sua carreira dessa forma, se ligando desde o  princípio com a publicidade.

Algo importante no artista é essa fácil relação que o mesmo tem com esse ramo publicitário e do design. Sua arte nunca perde sua identidade e ainda assim entra em um espaço conhecido por ser tão comercial e superficial.  É possível traçar uma relação com um grupo como o BTS, que veio de um espaço igualmente e massivamente comercial, mas consegue manter a sua identidade e sua autenticidade por tantos anos.

Trabalhando como freelancer na Disney, depois de se graduar em Artes Visuais em 1996, o artista sempre se viu envolto de figuras da cultura pop e foi nessa época que ele passou a criar figuras com os famosos dois “XX” no lugar dos olhos, uma grande referência aos cartoons mais antigos, onde caveiras e a morte eram retratados dessa forma.

Suas obras alcançaram um público enorme, mas existe uma motivação especial para que seu trabalho seja tão querido em países como Japão e  Coréia do Sul: colecionismo. Muitas pessoas, nesses países, têm uma enorme tradição e cultura de colecionar obras, brinquedos e pequenos objetos, especialmente, quando se tornam fãs de um determinado nicho. 

Então, Brian se aproveitou desse público e passou a investir em pequenas esculturas, facilitando a aquisição das mesmas por seus fãs e admiradores, tornando seus ‘bonecos’ muito queridos e desejados nesses espaços. O que justificaria tantas figuras públicas do meio artístico, como atores e idols de pop, terem suas obras em seus estúdios e residências, ligando KAWS novamente ao ponto crucial do texto: Jack In The Box.

“Nos últimos anos, as esculturas de KAWS se tornaram abertamente emocionais ou empáticas, começando com o trabalho COMPANION (PASSING THROUGH), de 2011. Esse companheiro parece aparentemente inconsolável, cobrindo o rosto com as mãos, obscurecendo os olhos e talvez as lágrimas brotando neles.“  

Revista Das Artes, 2020.
BTS's J-Hope And RM Are Successful KAWS Fanboys On Instagram - Koreaboo
j-hope e escultura de COMPANION, por KAWS. 2016

A escolha da capa:

O visual de um álbum em conjunto com a própria música conta toda uma história de um artista. A arte dos álbuns, ao longo dos anos, não somente influenciou a cultura de marca e de propaganda, mas também a cultura pop e os valores sociais (LE, 2020). Além disso, desde o surgimento da música digital e o streaming, novas facetas foram desenvolvidas e transformam ainda mais o papel que a arte dos álbuns desempenha atualmente na indústria.

Assim, o que se transmite e vende, é uma experiência e estilo de vida.

“Esse papel da arte de um álbum faz com que as capas: não sejam uma coisa supérflua a ser descartada durante o ato de ouvir, mas um componente integral da escuta que auxilia e expande a experiência musical” 

 — INGLIS, 2001 

Quando se observa o artista em questão, j-hope logo se nota seu amor por moda, contextos e conceitos, além de seu visível interesse por arte contemporânea e design. Essas características também refletem em quem ele é como músico, sendo assim, muito se espera de seu conceito artístico e visual para um álbum de estreia solo. 

Em diversas ocasiões, o músico deixou bem claro que está à frente da organização do projeto e das respectivas equipes responsáveis. O conceito visual para as fotos de divulgação foi criado por ele mesmo, com a ajuda na execução por um time de profissionais da sua equipe de costume. Quando questionado pela escolha de KAWS para a capa, o artista respondeu:

“Não posso conter o meu sorriso. Ele é um artista que eu realmente gosto. KAWS é um artista muito famoso, sabe? Para esse álbum, eu realmente busquei trabalhar com alguém que eu realmente respeito e admiro. Então, perguntei a ele se gostaria de trabalhar comigo. KAWS foi muito proativo nas suas respostas, nos falamos com frequência e foi assim que saiu a ideia da colaboração. Ainda não consigo acreditar, me sinto tão honrado.” 

— j-hope, ‘Jack In The Box’ entrevista de álbum para o BangtanTV, 2022.

Tanto a capa de seu pré-single ‘MORE’ quanto a capa de seu álbum são a mesma arte. ‘MORE’ nos traz uma parte da arte para causar curiosidade no público, sem mostrar a arte em completo. J-hope menciona a honra em trabalhar com seu artista favorito, instigando seus fãs a aguardar a capa completa do álbum.

Capa do pré-single oficial MORE,  j-hope. KAWS, 2022.

Nela podemos ver o foco nas mãos que procuram algo, coincidindo com o tema de seu álbum, sobretudo as músicas principais, nos trazendo uma sensação de busca.

E quais seriam todas essas buscas? Nas capas lançadas em trabalhos passados do rapper, não existem pessoas na frente, nenhuma figura humana, sempre trazendo a arte gráfica pura, cheia de cores fortes. Porém, nenhuma imagem de rosto em si, o que é uma característica extremamente comum nos trabalhos do BTS, onde linhas, formas e cores se unem para representar uma ideia geral da era em que eles se encontram. A diferença é que j-hope não costuma ser minimalista nas escolhas.

“Em um mundo de streaming digital, uma marca visual forte e coesa pode não apenas melhorar a conexão emocional de uma relação fã-artista, mas também aumentar os lucros para o músico. À medida que a pressão para vender mercadorias e shows ao vivo juntamente com a distribuição de álbuns em streaming, aumentou a necessidade de utilizar sugestões visuais coesas na própria arte do álbum.” 

 — LE, 2020.

Para a capa de seu álbum, Jack In The Box, KAWS e o rapper trouxeram cores semelhantes as usadas em capas passadas do artista, mas dessa vez a figura humana no meio, dando ênfase de que esse capítulo de sua vida é sobre ele mesmo e as mãos que compõe a arte, ganham um sentido primário na narrativa, mesmo que estejam atrás do personagem principal.

Geralmente, mãos são usadas para indicar coisas. Costumamos usar sinais e gestos com elas para ensinar ou mostrar, guiar as pessoas por nossas ideias, explicações e visões de determinado assunto.

Jack in The Box, por j-hope. Artista/designer: KAWS, Bighit Music/Hybe 2022.

Como dito anteriormente, KAWS trabalha com personagens e eras, que são fortemente ligadas à cartoons, uma referência enorme aos tempos que estudou e trabalhou nos estúdios Disney. Na capa, podemos ver as mãos do famoso personagem Companion. A marca dos “XX” é o que nos faz identificá-lo. Esse personagem costuma estar em obras de KAWS da série URGE, onde  é visto cobrindo sua boca, olhos, ouvidos, rosto e, às vezes, em algumas obras, se vê apenas suas mãos.  

URGE, por KAWS, 2020.

Interessante a escolha do personagem para a capa de j-hope, pois o mesmo, fazendo parte da série URGE, representa confusão, falta de senso de direção, ingenuidade e até mesmo a falta de poder.

“(…) As mãos de KAWS representam, de alguma forma, que j-hope está preso/indeciso em uma encruzilhada de escolhas, expressado nas direções [das mãos](…) E a mão grande, se você observar melhor, de alguma forma, parece que está tirando algo de dentro da caixa.” 

j-hope, VLIVE jack in the box premiere, 2022.

A disposição das cores também causa um certo desconforto, já que vermelho e verde, e seus tons variantes, são cores complementares ou no caso da capa, meio complementares, onde se destacam por serem ‘opostas’, dando contraste em suas diferenças.

Cores complementares são aquelas que mais oferecem contraste entre si.
Fonte: LGT Fotografia

J-hope, de terno preto e branco, está colocado sobre as mãos confusas, cheias de cores e contrastes. Esses elementos representam os inúmeros caminhos disponíveis para alguém que conquistou o mundo com um grupo incrível, e tem a sua disposição a possibilidade de tomar suas próprias decisões.

Talvez a falta de cor em suas vestes, tanto na capa do álbum quanto nos MVs de “MORE” e “Arson”, mostrem que ainda é uma escolha em aberto, ou que ele não queira se limitar a um caminho só.

Conclusão

Por muitos anos, arte e música andam de mãos dadas. Desde que o visual passou a ser um auxílio na hora de vender discos, até a era digital, onde é essencial para representar a persona do artista e sua musicalidade. A capa nem sempre precisa ser o artista em si, como nas anteriores de j-hope, contudo, nessa foi necessária, para que conte uma história coesa, que seja bem clara em afirmar para o ouvinte, seja ele um novo fã ou ARMY, que essa é a história de Jung Hoseok, o músico em busca de uma direção, de um caminho nesse novo capítulo de sua carreira.

Referências:

4 Comentários

  1. Nossa gente, já tinha visto antes algumas artes dele e nunca fui atrás. Acho lindo esses trabalhos/parcerias que os meninos fazem com outros artistas!

  2. Mais um trabalho lindo e super legal dessa equipe maravilhosa.

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