ARMYS NO DIVÃ – Reflexões sobre o ato de colecionar photocards.

Escrito por: Cosme Ribeiro,  Fernanda Neves

Revisado por: Elinaete Sabóia e Julyanna Ribeiro

A experiência de ser fã de artista musical vai além de apenas consumir música. Nas últimas décadas, uma das formas de apoiar o artista nas promoções de seus lançamentos, era a compra de álbuns físicos, ou como era popularmente conhecido os CDs. Com o advento dos serviços de streams musicais como Spotify, Apple Music, Deezer, Tidal, Amazon Music e etc, o consumo de álbuns físicos foram sendo substituídos por essas plataformas, trazendo uma nova forma de se consumir música.

Quando trazemos o assunto de álbuns físicos para o mercado do K-Pop, temos uma diferença significativa, pois mesmo com o avanço dos serviços virtuais, a indústria continua ativa e produzindo artigos físicos com o objetivo de serem consumidos pelos fãs.

A diferença entre os álbuns ocidentais e do K-Pop começa antes mesmo do lançamento (debut) do artista, ou do comeback, pois todos os produtos possuem como características principal o design conceitual feito especialmente para aquele lançamento, não sendo apenas um CD como ocorre no ocidente. Sobre os álbuns de K-Pop Remígio 2021, comenta:

São caracterizados por design conceituais e arrojados, com várias versões num mesmo lançamento e acompanhando diversas inclusões. Sua popularidade pode ser, em parte, justificada uma vez que álbuns de k-pop se assemelham muito mais aos formatos de edições limitadas e de colecionador comercializados no ocidente, do que às embalagens regulares de discos. Podem ser proporcionados por diferentes materiais. Além disso, eles costumam vir acompanhados de diversas inclusões, como photocards, photobook, postcards, bookmarks, posters, adesivos, dentre outros.

Remígio, 2021, Pág. 11-12.

Feita essa diferenciação entre os lançamentos ocidentais e do K-Pop, percebemos que para o fã, a experiência de possuir um álbum físico de seu artista favorito se torna ainda mais subjetiva e emocional. Levando em consideração o contexto do Bangtan, além de termos um CD contendo mensagens dos meninos para o ARMY, temos outros produtos selecionados por eles que intensificam o sentimento de acolhimento, como por exemplo, o álbum BE lançando em período pandêmico que teve o objetivo de trazer conforto¹ pelas letras das músicas, mas também através das suas criações íntimas, por exemplo as filmagens e fotos realizadas por Jungkook, ou a representação gráfica em formato de postcard (cartão postal) do quadro que Yoongi pintou em live.


Imagem 1 – inclusões presentes em um álbum, referência último lançamento dos meninos, Proof. 


Imagem 2 – Postcards presentes no álbum BE

200522 SUGA (+ENG)

Esses produtos que integram o álbum e acompanham o álbum físico, são chamados de inclusões, que dentro do fandom possuem grandes valores e admiradores, ou seja, pessoas que colecionam esses produtos, os chamados Collectors. Embora tenhamos comentado um pouco sobre a estrutura de um álbum de K-Pop, nos atentamos deste ponto em diante em focar nas coleções e no ato de colecionar.

É Importante lembrar que ter produtos oficiais e comprar álbuns, não é um fator decisivo para classificar alguém como fã ou não de determinado artista. Enquanto ARMYS, sabemos que somos fãs a partir do momento que destinamos nosso carinho e admiração aos meninos, e consumimos os conteúdos por eles produzidos com ou sem o envolvimento de dinheiro. Sabemos que por mais incrível e emocionante que possa ser de ter um produto oficial, nem todos possuem a mesma realidade e condições financeiras para possuir um desses produtos. O intuito desse texto não é influenciar o começo de uma coleção de álbuns e inclusões, e sim trazer um pouco de conhecimento a essa comunidade que cresce a cada dia, e reflexões sobre o fã collector e sua relação com o ARMY.

 Para entendermos essa sub-comunidade de fãs, vamos voltar um pouco, e entender:

O QUE É COLEÇÃO AFINAL?

No senso comum podemos classificar coleção como sendo vários itens semelhantes ou que se completam que costumamos guardar.  Um exemplo disso pode ser tampinhas de garrafas comemorativas, papel de carta, desenhos que realizamos na infância, brinquedos, figuras de ação e etc. Porém qual seria a definição técnico-científica de coleção?

Oliveira (2017) traz um dado curioso sobre a definição de coleção e afirma que é complexo chegar a uma definição exata do conceito de coleção, pois ao passar dos anos vários especialistas trouxeram contribuições variadas para o tema, apresentando características diferentes. Para nossa reflexão nos apoiaremos ao conceito de coleção evidenciado pelos estudos do teórico americano Russell W. Belk (1995), que trouxe contribuições significativas ao entendimento da relação entre coleção, consumo, economia e subjetividade.

Do ponto de vista histórico, existem registros do ato de colecionar que são anteriores a construção do mundo contemporâneo, sendo evidenciado pelas comunidades que colecionavam plantas que poderiam ser úteis para a sobrevivência, mas também para a contemplação do aspecto estético e belo (como os jardins suspensos de Salomão na antiga Mesopotâmia), Oliveira et al (2017), ainda apresenta uma breve linha do tempo, datando que a partir do século XVII teve evidências do início de grandes coleções pessoais e museus, já no século XIX o avanço do colecionismo para dentro das residências, e no século XX os registros de coleções individuais de objetos com representações subjetivas e emocionais.

Indo de encontro com os registros históricos de coleções, Belk (1995) propõe que colecionar algo faz parte de um processo ativo, no qual os objetos assumem a característica de desejo do indivíduo, mesmo sem apresentar uma função útil. Baudrillard (2006) exemplifica essa função afirmando que o ato de colecionar vai além das necessidades funcionais, em que estruturas mentais se misturam com dimensões culturais e transculturais embasadas no cotidiano do indivíduo.

Belk (1995) ainda vai além, ao afirmar também que coleções estão presentes em toda parte, tanto na cultura dos indivíduos como também no cotidiano de cada um de nós, e ainda institui que a uma coleção se inicia a partir do momento que se deseja colecionar, começando ali apenas com uma manifestação espontânea e apaixonada. E essa última fase é o que motiva muitos ARMYS a começar e dar continuidade no ato de colecionar. Muitos collectors comentam que possuir um item dos meninos aumentaram sua admiração e carinho por eles, e ainda criou em si o sentimento de proximidade entre o fã e o idol.

Embora alguns teóricos afirmem que para se classificar como coleção os objetos precisam ser enquadrados como um item colecionável, sendo tratado como um objeto de apelo estético (Silva et al 2020), para o fã de K-Pop além do estético pode estar aplicado nos objetivos sentimentos existente pelo ídolo. Pereira e Vieira (2022), afirmam que comprar álbuns, fotos, acessórios, faz parte da experiência de ser fã é de se sentir pertencente a algo.

COLEÇÕES E O ARMY

No âmbito comercial, Remígio (2021) indica que entre os fãs existe uma maior procura de vendas e trocas por inclusões de álbuns, em especial por photocards. De forma geral, photocards são pequenos cartões com fotos dos membros do grupo, tanto individuais, quanto com outros membros ou o grupo todo.

O ato de colecionar ultrapassa os limites de consumir ou apoiar o artista comprando o produto, e se torna uma forma de armazenar e cultivar memórias (Pereira e Vieira, 2022), assim como um álbum de fotos de família, no qual ao folhear vivenciamos um sentimento nostálgico e recordamos do momento em que as fotografias foram tiradas, dessa mesma forma consideramos as coleções.  Se torna comum os relatos de fãs que se sentem nostálgicos ao folhearem as páginas de seus Collect Books ou Binders², e a sensação de  reviver os sentimentos de quando adquiriram tal photocard, ou para os collectors ativos que compram os álbuns, o momento que perceberam que o card de seu membro favorito foi a sua pull³. Sendo assim uma projeção do sentimento de realização, principalmente pois, como afirmam Pereira e Vieira (2022) o BTS proporciona produtos que trazem felicidades momentâneas para os fãs, podendo ser revividas em momentos posteriores, mediante a um estímulo, vindo por exemplo através do folhear de uma coleção.

         Atualmente a procura por photocards está aumentando, sendo comum em redes sociais como o Twitter, Instagram, Tiktok se encontrar perfis voltado para exibição de coleções, perfis para compra e venda desses itens, além de relações de amizade entre colecionadores em gerais e de membros e grupos específicos.

A internet assume um papel importante para os collectors, uma vez que através das redes é possível a troca de dados e contato entre os colecionadores, proporcionando um espaço de compra e venda, mas também um espaço de acolhimento e aprendizado (Oliveira, 2017), pois sempre que surge um novo colecionador os famosos Babys Collector, colecionadores mais experientes estão de prontidão para auxiliar e transmitir seus conhecimentos e inseri-lo nas comunidades de colecionadores.

Diversos aspectos psicológicos envolvem uma coleção e o ato de colecionar, que pode vir do sentimento de cada um, assim como já comentado em parágrafos anteriores, a motivação de colecionar vem de motivações sentimentais. Silva et al (2020), afirma que o objeto – aqui retratado na figura do photocards – se incorpora na identidade do colecionador, e através da sua coleção o indivíduo consegue contar quem ele é e um pouco da sua história como fã.

Como mencionado, o ato de colecionar auxilia nos processos de  criação de laços afetivos, sendo uma ferramenta para o desenvolvimento social do indivíduo, mesmo os photocards sendo inclusões de um álbum, eles ainda pertencem ao artista, que possui uma importante característica de serem agentes de criação de relações interpessoais entre os ARMYs, e seus produtos fortificam tal relação. Pereira e Vieira (2022) trazem uma importante reflexão acerca desse tema:

Além do grupo ser o principal fator de sociação desses indivíduos e o maior responsável pela promoção de conexões dentro dessa comunidade. As criações de fan bases são exemplos desse caráter de sociação, em virtude dos interesses e práticas que se desenvolvem e vão além do consumo de BTS – podendo acarretar na formação de amizades, por exemplo -, ainda que o tenham como elemento iniciador. Os objetos adquiridos pelos fãs apresentam diversos significados.

Pereira e Vieira 2022,pág 06

Ou seja, o BTS enquanto grupo e de maneira individual, contribui para a construção de laços em que pessoas que apreciam o trabalho deles se unem, e quando partimos para os produtos (photocards, álbuns dentre outros), quando se trata de colecionadores essa união é fortalecida pelo interesses em comum.

Quando citamos a coleção com funcionalidade subjetiva, estamos inserindo aqueles indivíduos que vivenciam momentos de angústias em suas vidas, e a eles a coleção também pode assumir o posto de alívio, servindo como uma válvula de escape, Oliveira et al (2016) comenta que:

A coleção pode ser uma válvula de escape, um refúgio onde o colecionador se abriga para se distanciar das preocupações e problemas do dia a dia. É um mundo particular, contendo apenas o que ele gosta, onde é fácil esquecer das obrigações e cobranças da sociedade e se dedicar a algo apenas por prazer, pela satisfação pessoal.

Oliveira et al, 2016, pág 45

Com isso caminhamos para um ponto sensível para os collectors (principalmente para os maiores de idade), pois quando citado que colecionam photocards (ou outros itens)  imediatamente há questionamentos e julgamentos no qual muitos apontam a coleção como algo infantilizado, e colocam o collector como alguém infantil, como pessoas financeiramente irresponsáveis e outros tipos de ofensa. Dessa forma, as comunidades de collectors costumam acolher pessoas com interesse em colecionar, pois entendem que o fato de ser colecionador de algo tido como não convencional costuma não ser aceito pelas pessoas (até mesmo dentro do fandom).

Com esse texto buscamos trazer uma visão mais ampla e detalhada sobre ser collector,  elucidando que para quem coleciona, os cards não são apenas um “pedaço de papelão estúpido”, é uma história de carinho e admiração de um fã para com seus artistas favoritos, é algo que possui um significado de maneira subjetiva e especial. Para muitos é um escape de momentos angustiantes da vida, para outros um agente de desenvolvimento de amizades, e também uma proximidade do fã com o artista, principalmente quando nossos ídolos residem em outra parte do mundo, e é difícil ter o contato físico e pessoal, e o acesso a eles devido à falta de recursos para frequentar shows e eventos.  A projeção de saber que o artista dedicou momentos de seu dia para ser fotografado para aquele item, e no caso do BTS que participam ativamente dos lançamentos de seus itens, traz a nós fãs um sentimento de maior proximidade.

Caminhando para o fim de nossa reflexão, o ato de colecionar como mencionado no início do texto, pode não ser algo funcional a vista científica, mas assume uma função subjetiva e pode se tornar um instrumento importante na validação dos sentimentos do indivíduo, trazendo sensações de pertencimento e  preenchimento (Santos e Faria, 2017). O colecionismo pode ser considerado como um instrumento terapêutico, mesmo que não substitua uma psicoterapia, mas pode auxiliar no desenvolvimento do sujeito. Novamente nosso intuito não é o de transformar novos colecionadores de photocards, mas sim de mostrar que independente da relação de fã que possua com os meninos, desde que utilize seu carinho e dedicação, sempre terá um lugarzinho no fandom, seja curtindo as músicas, letras e MVs, ou colecionando álbuns e itens oficiais, e não oficiais, no fim o que vale é o amor de fã.

Glossário:


1- Aplicamos aqui o conceito de Conforto, como ação de demonstrar carinho, solidariedade, e consolo, para o período difícil que vivemos nos anos de 2020 a 2022, com os efeitos catastróficos da pandemia ocasionada pela COVID-19.

2- Nome dado a espécie de pasta utilizada para armazenar photocards, Collect Book é semelhante a um álbum de fotografias com uma quantidade de páginas limitadas em que cada folha uma possui espaço para um ou dois photocards. Já os Binders, são uma espécie de fichário argolado, no qual pode-se colocar a quantidade necessária de folhas, podendo variar de tamanho de acordo com a quantidade de photocards por página, onde os mais comuns são os de tamanhos A4 e A5.

3- Pull ou Pulls, é o termo designado aos photocards aleatórios que vieram no álbum que o collector comprou, como por exemplo, um collector que possui o membro V (Taehyung) como seu bias, ao abrir o álbum percebeu que veio um photocards do V e outro do Jin, logo esses dois cards foram suas pulls.

REFERÊNCIAS

Belk, R. W. (1995). Collectors and collecting. In S. M. Pearce, Interpreting objects and collections (pp. 317–326). Routledge: London.

PEREIRA, R. A.; VIEIRA, M. do C. O sentir e o consumir do/no army, fandom do BTS: capital afetivo e a cultura material nas experiências de fãs. Signos do Consumo, [S. l.], v. 14, n. 2, p. e202336, 2022. DOI: 10.11606/issn.1984-5057.v14i2e202336. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/signosdoconsumo/article/view/202336. Acesso em: 1 abr. 2023.

OLIVER, W. Idolizing Consumption: an exploration of the k-pop albums relevance in a digital age. 2020. 76 f. Dissertação (Mestrado) – Visual Culture Course, Arts and Cultural Sciences, Lund University, Lund, 2020. Disponível em: http://lup.lub.lu.se/student-papers/record/9015386. Acesso em 30 abr. 2023.

OLIVEIRA, Celia. Coleções e colecionadores: as práticas de colecionar, motivações e simbologias. Museologia & Interdisciplinaridade, [S. l.], v. 6, n. 12, 2017. DOI: 10.26512/museologia.v6i12.16356. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/16356. Acesso em: 1 abr. 2023

OLIVEIRA, Douglas Fernando Henrique de; HOLANDA, Adriano Furtado; MACIEL, Josemar de Campos. Coleções e colecionadores: compreendendo o significado de colecionar. Rev. NUFEN,  Belém, v.8, n.1, p.31-54, 2016. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912016000100004>. Acesso em  01  abr.  2023

REMÍGIO, Mariana Batista. Movidos pela experiência: um estudo sobre o consumo de álbuns físicos de K-pop por fãs brasileiros. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Design) – Universidade Federal de Pernambuco, Caruaru, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/43151. Acesso em 01 abr 2023.

SANTOS, Lídia Moreia; FARIA, Mônica Lima de. O valor sentimental da coleção. Pelotas: Periódicos UFPel, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/suldesign/issue/view/674. Acesso em: 25 de março de 2023.

SILVA, H. H. C. da; NUNES, M. R. F.; STREHLAU, V. I. A experiência estética no consumo de coleções: um estudo sobre colecionadores de estátuas e figuras de ação. Signos do Consumo, [S. l.], v. 12, n. 1, p. 94-111, 2020. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/signosdoconsumo/article/view/159992. Acesso em: 25 abr. 2023.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

MUITO MAIS

Bangtan Universe
A Narrativa Visual Na Linguagem Cinematográfica De Matrix No MV N.O do BTS

Acerca de algumas discrepâncias históricas, que não nos parecem estar de acordo com os princípios que tanto falamos e ouvimos em nosso meio social, devemos manter nossas dúvidas guardadas dentro de uma prateleira e esperar elas serem reveladas? Ou ainda devemos manter um senso crítico e questionador, que para uma sociedade moralista, o seu posicionamento seja subjugado como “rebelde e imprudente”?

Leia Mais
Bangtan Universe
Os sonhos de resistência e a Revolução dos Bichos contra as imposições coletivas

Em suma, “A revolução dos bichos” faz críticas à regimes totalitários e aponta a hipocrisia dos governantes que burlam as regras para benefício próprio. Observa-se que o livro demonstra os jogos de poder dos porcos, critica a censura e a manipulação das massas que ocorre com os animais. A educação mostra-se como um fator determinante na sociedade do livro, pois auxilia na compreensão da política e traz mais oportunidades.  

Leia Mais