“Like Crazy”: a cultura clubber e Robert Mapplethorpe

Autora: Nathalia Mutz
Revisores: Ariely Medeiros, Mariana Castro e Suane Teixeira


Like Crazy, Jimin
Fonte: HYBE LABELS, 2023

“A faixa principal [“Like Crazy”], parece feliz, mas também há solidão por trás dela.”

— Jimin, Rolling Stone (2023)

Subjetividade é um dos principais elementos audiovisuais nos projetos do grupo BTS. Isso tem sido cada vez mais claro com seus trabalhos solos ao longo de 2022 e 2023. Essa afirmação faz sentido quando observamos a forma que as músicas se estruturam na lírica e nas diversas camadas de sons e instrumentos utilizados na produção de seus discos, além dos diversos símbolos, cores e elementos do conteúdo visual, como álbuns e videoclipes.

A ideia é carregar mais de um recurso, sentido e, ao mesmo tempo, conectar as narrativas para algo coeso. Seguindo esse raciocínio, Jimin, quarto membro do grupo a ter seu lançamento solo oficializado depois do anúncio do hiato em 2022, lança o álbum “FACE” (24 de março de 2023) com a música “Like Crazy” sendo o carro chefe, single oficial de sua estreia. No mesmo dia, o vídeo para a música, produzido por Oui Kim, foi lançado no YouTube, revelando uma narrativa surpreendente, rico de referências, das complexas até as mais fáceis de se identificar.


Capa do álbum de estreia de Jimin, “Face.
Fonte: BIGHIT MUSIC, 2023

Diferentes dos demais artistas do ramo do K-pop, Jimin e o diretor Kim resolveram contar uma história respeitando a narrativa do álbum e da música, mas excluindo uma das maiores forças do astro: a dança. Sem coreografias, vemos Jimin sendo arrastado para dentro de um mundo lúdico, representando a ideia de estar imerso em um sonho, uma viagem alcoólica de isolamento pandêmico inevitável, época que todos temos registro. O rapaz se isola em seus aposentos, sozinho e sonolento, puxado para um clube misterioso, sem nome. 


Like Crazy, Jimin
Fonte: HYBE LABELS, 2023

A música foi escrita em tempos difíceis, de acordo com o próprio artista em entrevista para a Rolling Stone (2023): “Eu estava pensando sobre coisas como: Por que estou vivendo dessa forma? O que eu estou fazendo agora?”. 

Apesar de a música ser inspirada no filme “Loucamente Apaixonados”, um drama de 2011, a essência principal se liga à situação de Jimin durante o isolamento: o sentimento de separação de alguém que você mais ama. No caso, BTS e ARMY.

Seguindo uma sequência perfeita, o álbum descreve essa época e a presença do álcool é mais do que comum. Jimin estar em uma boate dentro de seu próprio apartamento é uma figura de linguagem para a viagem que o álcool o levou, como uma válvula de escape, ficando isolado nesse espaço de embriaguez e despertando da viagem apenas quando o Sol nasce.

Dividido em alguns cenários, o clube tem forte referência a uma cultura que surgiu nos anos 1990, o clubbing ou clubber. Existe um cuidado para não percebermos o local onde o clube fica, país ou cidade, já que a ideia é ser um não-lugar, uma espécie de memória ou sonho, pois dessa forma o espectador consegue se pôr no lugar do protagonista com mais facilidade. 


Like Crazy, Jimin
Fonte: HYBE LABELS, 2023

Uma observação um tanto triste é lembrar que aglomerações como as do vídeo, na época de sua vida a que Jimin se refere, só eram possíveis nos sonhos. Jaquetas de couro, ou jeans, tênis, botas, roupas casuais, casais sendo flagrados em uma lente de calor, são apresentados como se todos esses toques e elementos devessem ser segredos e Jimin está no meio, como um observador que participa, mas não interfere muito, até sermos levados ao banheiro.


Like Crazy, Jimin 
Fonte: HYBE LABELS, 2023

Com uma caracterização de set feita cuidadosamente para nos carregar aos clubes da década de 1990, Jimin veste roupas que nos transportam para duas décadas: a camisa da Acne Studios é uma referência aos anos 1990 e as calças da marca MISBHV, com dois auto retratos de Robert Mapplethorpe, na década de 1980, outro foco especial da nossa análise.


Autorretrato
Fonte: Robert Mapplethorpe, 1980

Jimin nos apresenta uma forte influência de épocas em que os jovens buscavam liberdade para se divertir, mas por ser algo não muito aceito pela sociedade, essas décadas foram marcadas pela cultura underground. Mapplethorpe foi um jovem fotógrafo, atuante em Nova Iorque e focado em registrar esses momentos e corpos. Para sua época, o rapaz foi controverso e o seu curto tempo de vida ficou marcado por ser considerado polêmico.

Artistas como Jimin, dançarinos de corpos versáteis e tão flexíveis, eram escolhas perfeitas para serem modelos do fotógrafo, focado em retratos em preto e branco. A escolha para esse tipo de corpo é uma forte referência aos seus estudos de arte clássica, tanto que a falta de cor e as poses de seus modelos lembram esculturas gregas clássicas, e a composição das fotos seguem regras básicas de simetria.


Patti Smith
Fonte: Robert Mapplethorpe, 1976

Robert também registrou pessoas de diferentes comunidades. Um dos momentos mais fortes de sua carreira foi em 1984, quando fotografou Grace Jones, cantora, modelo, atriz e compositora jamaicana, uma figura ilustre da cena artística, que causou muito desconforto entre os conservadores americanos com seu visual andrógeno e a liberdade em abraçar seu corpo e amar suas origens, uma grande personalidade dentro do movimento power dressing, da década de 1980.


Grace Jones
Fonte: Robert Mapplethorpe, 1984

Nos anos 1990 e 2000, a imagem de Robert se fixou na mente das pessoas, especialmente pelos seus autorretratos — os mesmos que vemos nas pernas da calça de Jimin no videoclipe. O fotógrafo gostava de interpretar diferentes personagens em seus autorretratos para, de acordo com ele, para lhe dar mais autoconfiança. 


Autorretratos de Robert Mapplethorpe
Fonte: Robert Mapplethorpe, 1982 e 1980

Em 1986, Mapplethorpe foi diagnosticado com aidsAIDS. Na época havia uma enorme pandemia e o artista perdeu inúmeros amigos e conhecidos. Sabendo disso, o medo da morte não o impediu de fotografar até os últimos momentos de sua vida. O rapaz se tornou um símbolo e, graças a isso, seu trabalho foi imortalizado através da Fundação Robert Mapplethorpe. Nos anos 1990, outra década referenciada no vídeo, se viveu a cultura do clubbing. Uma das características da época eram as estampas das roupas com referências a figuras da cultura pop, ou ícones da cultura, além do forte uso de jeans e couro, vistos nas promoções da música “Like Crazy” e nas cenas da boate.


Tunel-clube noturno em Nova Iorque 
Fonte: Steve Eichner, 1990

Possivelmente, o que ligou a caracterização de Jimin a Mapplethorpe, além das muitas nuances já descritas, é a coleção criada pela marca de clubwear MISBHV, focada em trazer os autorretratos do fotógrafo. De acordo com a agência de consultoria ARTESTAR, a colaboração é descrita como:

A coleção Robert Mapplethorpe x MISBHV apresenta obras de arte de Robert Mapplethorpe que inspiram amor, luxúria e couro. Inclui zíperes de metal, patches e vinil. Este é um projeto com a marca polonesa MISBHV, que cria roupas neutras em termos de gênero e representa exclusividade.  

— Artestar, 2023

A marca MISBHV tem na sua página de declaração da marca a seguinte frase: “CLUBE: uma porta para um novo você, sua autoexpressão destemida, seu próprio senso de liberdade e comunidade”. Acolhendo a imagem do fotógrafo em uma linha de roupas dedicada a ele.

No meio do vídeo, Jimin se encontra fugindo do amanhecer, correndo entre as pessoas que tentam sair do clube pela porta no fim do corredor. Finalmente cedendo, o rapaz se retira daquela viagem, voltando para seu apartamento, contudo, trazendo consigo lama em seus sapatos e em suas mãos.

No mundo da arte, a simbologia da lama pode ser diversa. Em muitas culturas, a lama pode significar a criação da vida, algo virtuoso, a mistura de água e terra. Contudo, na cultura pop, a lama também pode representar algo contrário, como sujeira e poluição, algo que nos mancha e nos incrimina, deixando ao fim do vídeo uma ideia de que, mesmo que tenha sido uma viagem dentro de seus próprios pensamentos e desejos, Jimin volta ao seu consciente carregando consigo algum tipo de espólio, memória, que pode ser interpretado como um dano ou não.


Like Crazy, Jimin
Fonte: HYBE LABELS, 2023

Em conclusão, “Like Crazy” nos carrega para um mundo de memória, de sonho do personagem principal, que isolado naquele lugar, se diverte e reflete sobre sua própria figura e existência. Além disso, traz referências a décadas nas quais os jovens começaram a explorar suas personalidades, com a falsa sensação de liberdade, isolados nos espaços do underground de cidades, nos clubes e nos seus sonhos.

Referências:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

MUITO MAIS

Bangtan Universe
A Narrativa Visual Na Linguagem Cinematográfica De Matrix No MV N.O do BTS

Acerca de algumas discrepâncias históricas, que não nos parecem estar de acordo com os princípios que tanto falamos e ouvimos em nosso meio social, devemos manter nossas dúvidas guardadas dentro de uma prateleira e esperar elas serem reveladas? Ou ainda devemos manter um senso crítico e questionador, que para uma sociedade moralista, o seu posicionamento seja subjugado como “rebelde e imprudente”?

Leia Mais
Bangtan Universe
Os sonhos de resistência e a Revolução dos Bichos contra as imposições coletivas

Em suma, “A revolução dos bichos” faz críticas à regimes totalitários e aponta a hipocrisia dos governantes que burlam as regras para benefício próprio. Observa-se que o livro demonstra os jogos de poder dos porcos, critica a censura e a manipulação das massas que ocorre com os animais. A educação mostra-se como um fator determinante na sociedade do livro, pois auxilia na compreensão da política e traz mais oportunidades.  

Leia Mais